Adesivo de lactase: o que se sabe sobre a novidade viral
Produto promete aliviar sintomas da intolerância à lactose por até 12 horas, mas especialista alerta que ainda faltam evidências científicas independentes sobre a tecnologia
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Um pequeno adesivo colocado na pele começou a chamar atenção nas redes sociais por uma promessa que parece simples: ajudar pessoas com intolerância à lactose a consumir alimentos com leite sem os desconfortos provocados pela condição.
O produto é o Dear Dairy, desenvolvido pela empresa Barrière. A marca afirma que o adesivo contém lactase, enzima responsável pela digestão da lactose, e pode ser usado por até 8 a 12 horas. Nas redes sociais, publicações sobre a novidade acumulam milhares de visualizações.
A proposta chama atenção principalmente de quem precisa tomar comprimidos ou gotas de lactase antes de consumir alimentos com lactose. Mas existe uma pergunta importante por trás da novidade: a ciência já comprovou que colocar lactase na pele é suficiente para que a enzima chegue ao intestino e cumpra sua função?
Segundo o gastroenterologista ouvido pela coluna, Nelson Cathcart Jr, ainda não existem evidências científicas robustas que comprovem a eficácia da tecnologia.
“Não existem grandes bases científicas que comprovem isso até o momento. Claro que a empresa trouxe alguns dados promissores, mas isso precisa ser respaldado”, explica o médico.
O que é a intolerância à lactose?
A lactose é o açúcar naturalmente presente no leite e em seus derivados. Para ser digerida, ela precisa ser quebrada pela lactase, uma enzima produzida no intestino delgado.
Quando a produção da enzima é insuficiente, parte da lactose não é digerida e chega ao intestino grosso. Ali, é fermentada pelas bactérias, produzindo gases e outros efeitos que podem provocar os sintomas da intolerância.
Entre os sintomas mais comuns estão:
- gases;
- distensão e inchaço abdominal;
- cólicas e dor;
- diarreia;
- náuseas;
- sensação de empachamento.
Eles podem surgir geralmente entre meia hora e algumas horas depois do consumo, e a intensidade depende tanto da quantidade de lactose ingerida quanto da capacidade individual de digeri-la.
Embora a diarreia seja um dos sintomas mais conhecidos, ela não é obrigatória. Uma revisão científica aponta que a constipação também pode aparecer em parte dos pacientes.
Intolerância não é a mesma coisa que alergia
Uma confusão bastante comum é tratar intolerância à lactose e alergia ao leite como se fossem a mesma condição.
Não são.
A intolerância à lactose está relacionada à dificuldade de digerir um açúcar, enquanto a alergia ao leite envolve uma resposta do sistema imunológico às proteínas do leite. Uma reação alérgica pode ser grave e potencialmente ameaçar a vida; a intolerância, por sua vez, costuma provocar sintomas principalmente digestivos.
Por isso, um produto desenvolvido para ajudar na digestão da lactose não deve ser usado como solução para quem tem alergia à proteína do leite. A própria fabricante do Dear Dairy faz essa ressalva.
Existem diferentes tipos de intolerância
A intolerância à lactose não acontece da mesma maneira para todo mundo.
Segundo Nelson, uma das formas mais comuns é a chamada hipolactasia do adulto, ou não persistência da lactase. Nesse caso, a produção da enzima diminui naturalmente depois da infância. A prevalência varia bastante de acordo com características genéticas e populacionais. Uma revisão global estima que cerca de 68% da população mundial apresente má absorção de lactose, embora isso não signifique que todas essas pessoas tenham sintomas ou sejam clinicamente intolerantes.
Também existe a deficiência congênita de lactase, uma condição genética rara em que a produção da enzima é muito baixa ou praticamente inexistente desde o nascimento.
Já a intolerância secundária ocorre quando alguma doença ou lesão prejudica o intestino delgado. Doenças como doença celíaca e doença de Crohn, além de infecções e outras condições que lesionam a mucosa intestinal, podem reduzir temporariamente a produção de lactase. Quando a causa é tratada, a tolerância à lactose pode voltar.
Por que a lactase precisa chegar ao intestino?
É justamente aqui que está a principal questão levantada pelo médico sobre o adesivo.
A lactase é uma enzima digestiva. Quando utilizada em comprimidos ou gotas, ela é administrada pela boca e atua no sistema digestivo, onde encontra a lactose presente nos alimentos. Os suplementos de lactase são uma das formas reconhecidas de ajudar no controle dos sintomas.
O adesivo propõe um caminho diferente: a lactase é colocada sobre a pele.
A fabricante afirma que o produto utiliza tecnologia transdérmica para fornecer 2,5 mg de lactase, equivalentes a 9 mil FCC de atividade enzimática por adesivo. A orientação é colocar o produto sobre a pele antes do consumo de alimentos com lactose e utilizá-lo por até 8 a 12 horas.
O problema é que, para a lactase produzir o efeito esperado, ela precisa estar ativa no trato gastrointestinal.
“Tradicionalmente, essa enzima precisa estar no intestino. O que a empresa está tentando justificar é que, através de um adesivo na pele, isso acabaria trazendo estimulação para a lactase lá no intestino”, explica o gastroenterologista.
Segundo ele, a ideia é interessante, mas ainda precisa ser comprovada por estudos mais robustos.
“Se isso é verdadeiro, o tempo e os estudos vão mostrar. Mas a cautela aqui, com certeza, é fundamental.”
E os estudos apresentados pela empresa?
A Barrière divulga um estudo próprio de uso domiciliar do produto. De acordo com os dados publicados pela própria empresa, inicialmente foram recrutadas 100 pessoas, com 84 participantes concluindo o estudo. Os participantes utilizaram o adesivo durante aproximadamente uma semana e relataram os sintomas após consumir alimentos com laticínios.
Segundo a empresa:
- 85% disseram sentir o efeito do adesivo dentro de uma hora;
- 76% relataram menos cólicas;
- 72% relataram menos náuseas;
- 70% relataram menos inchaço;
- 67% relataram menos gases;
- mais de 85% disseram ter sentido pouco ou nenhum desconforto digestivo entre duas e quatro horas depois do consumo de laticínios.
Mas existe uma diferença importante entre um resultado promissor e uma comprovação científica robusta de eficácia.
O próprio material da empresa informa que se trata de um estudo de uso domiciliar, com os participantes relatando a própria percepção dos sintomas. Não é apresentado ali um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo.
Por isso, os números divulgados pela fabricante podem ser apresentados como dados preliminares, mas não encerram a discussão científica.
Até o momento, o médico entrevistado pelo SCC10 afirma não haver uma base científica sólida e independente suficiente para recomendar o adesivo como substituto comprovado da lactase administrada por via oral.
“Mas algumas pessoas dizem que funciona”
Nas próprias redes sociais da marca e em fóruns de consumidores, há relatos de pessoas que afirmam ter conseguido consumir sorvete, queijo e outros laticínios sem os sintomas habituais depois de utilizar o adesivo.
Isso, porém, não é suficiente para comprovar sua eficácia.
Sintomas gastrointestinais podem variar naturalmente, além de sofrer influência da quantidade de lactose ingerida, do alimento consumido e de outros fatores. Estudos controlados são necessários justamente para separar o efeito real de uma intervenção de outras possíveis explicações.
Por isso, a experiência individual pode ser interessante, mas não substitui evidência clínica.
O que já funciona para controlar a intolerância?
O tratamento depende da causa e do grau de intolerância.
Em muitos casos, não é necessário eliminar completamente todos os derivados do leite. A quantidade de lactose tolerada varia de pessoa para pessoa, e muitos indivíduos conseguem consumir determinadas quantidades sem apresentar sintomas.
Algumas estratégias incluem:
Produtos sem lactose: leite e derivados com a lactose previamente quebrada podem ser consumidos sem provocar os mesmos sintomas em pessoas com intolerância.
Redução da quantidade: algumas pessoas conseguem consumir pequenas porções de produtos com lactose, principalmente quando ingeridos junto com outros alimentos.
Escolha de derivados com menos lactose: alguns queijos e iogurtes apresentam quantidades menores da substância.
Enzima lactase: comprimidos, cápsulas, pó ou gotas contendo lactase podem ser utilizados antes ou junto do consumo de alimentos com lactose. A enzima atua quebrando a lactose para facilitar sua digestão.
No caso da intolerância secundária, também é importante investigar e tratar a doença ou condição que provocou a redução temporária da lactase.
Cortar totalmente os laticínios pode ser necessário?
Nem sempre.
Uma preocupação apontada pelo médico é que uma pessoa diagnosticada com intolerância pode acabar retirando completamente leite e derivados da alimentação sem acompanhamento nutricional.
Isso pode reduzir a ingestão de nutrientes importantes, principalmente cálcio e vitamina D. Órgãos de saúde recomendam atenção à ingestão desses nutrientes quando há redução do consumo de laticínios.
A literatura também aponta que o problema para a saúde óssea está principalmente associado à restrição alimentar e à consequente baixa ingestão de nutrientes, e não simplesmente ao fato de a pessoa produzir menos lactase.
Por isso, retirar completamente um grupo alimentar sem orientação pode não ser a melhor estratégia.
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