Dieta sem glúten pode custar até 5 vezes mais no Brasil
Levantamento mostra diferença de preços entre produtos tradicionais e versões sem glúten; especialistas alertam para impacto no tratamento de celíacos
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Já imaginou precisar ler o rótulo de absolutamente tudo o que coloca no carrinho do supermercado? E, depois de encontrar algo seguro para consumir, ainda precisar pagar o dobro (ou até o quíntuplo) por isso?
Essa é a realidade de quem convive com a doença celíaca no Brasil.
A condição autoimune exige uma dieta rigorosamente sem glúten pelo resto da vida. E manter essa alimentação pesa, e muito, no bolso.
Um levantamento feito durante reportagem da coluna comparou produtos comuns e suas versões sem glúten. O resultado chamou atenção: a compra chegou a ficar cinco vezes mais cara.
Enquanto os itens tradicionais somaram R$ 26,05, os equivalentes sem glúten chegaram a R$ 143,94.
O que é a doença celíaca
Segundo o gastroenterologista Nelson Cathcart Jr., que também é celíaco, a doença acontece quando o organismo reage de forma desproporcional ao glúten, proteína presente no trigo, centeio e cevada.
“O glúten, quando entra em contato com o intestino delgado desses pacientes, causa uma inflamação muito importante, crônica e persistente”, explicou.
A doença não tem cura, mas possui controle: a única forma de tratamento é a exclusão total do glúten da alimentação. Sem isso, os prejuízos podem ser graves.
A doença celíaca pode causar:
- anemia
- deficiência de vitaminas
- dores de cabeça
- dores articulares
- alterações neurológicas
- inflamação intestinal contínua
- e até câncer em casos prolongados de exposição
Apesar disso, o diagnóstico ainda é subestimado. Segundo o especialista, estima-se que existam mais de 2 milhões de brasileiros com doença celíaca e mais de 80% ainda não sabem que têm a condição.
O peso no carrinho
Entre os produtos analisados, a diferença de preço aparece logo nos itens mais básicos do dia a dia.
Uma bolacha água e sal sem glúten custa R$ 45,99. Já a versão tradicional, em embalagem maior, saí por R$ 6,99.
A bolacha de amido de milho sem glúten foi encontrada por R$ 10,99, enquanto a convencional custava R$ 6,69, com três pacotes.
O pão de forma também chamou atenção. Versões sem glúten, menores do que os pães tradicionais, variavam entre R$ 18,99 e R$ 24,99. Já um pão comum era vendido por R$ 6,99.
Até alimentos considerados simples, como macarrão, praticamente dobram de preço. Enquanto a versão tradicional custava R$ 2,59, as opções sem glúten chegavam a R$ 10,99.
Fazer em casa também custa caro
Para fugir da contaminação cruzada e tentar economizar, muitas pessoas acabam preparando os próprios alimentos em casa. Mas isso também exige investimento.
Apenas a goma xantana, ingredinete essencial para dar textura aos alimentos sem glúten, pode ultrapassar facilmente os R$ 40 dependendo da marca.
Além disso, reproduzir a textura do pão tradicional é um desafio. A professora responsável pelo Ambulatório de Nutrição para Indivíduos com Doença Celíaca da UFSC explica que o glúten possui características únicas na panificação. Ele é responsável pela elasticidade e pela capacidade de absorção de água que dá estrutura e maciez aos alimentos.
Sem ele, é necessário combinar diferentes farinhas, como:
- arroz
- polvilho
- quinoa
- amaranto
- farinha de amêndoas
A de arroz é uma das mais baratas, mas a maioria é muito refinada, o que a torna pobre em nutrientes e o problema é que ingredientes mais nutritivos costumam ser ainda mais caros.
Além do preço, a questão nutricional
Outro ponto de atenção é a qualidade nutricional. Segundo a especialista, muitas farinhas sem glúten disponíveis no mercado são bastante refinadas e perdem nutrientes importantes no processo.
Enquanto isso, a farinha de trigo tradicional possui enriquecimento obrigatório com ferro e ácido fólico, algo que não acontece na maioria das alternativas sem glúten.
A preocupação é ainda maior porque anemia e deficiência nutricional são comuns entre pessoas com doença celíaca.
Por que produtos sem glúten são mais caros?
Parte da resposta está nos impostos. Enquanto a farinha de trigo possui tributação zerada em muitos casos, diversas farinhas alternativas recebem cobrança de impostos estaduais e federais.
Segundo o advogado tributarista, Henrique, Franceschetto, isso pode representar quase 30% de carga tributária adicional.
Para o advogado entrevistado, a discussão vai além da alimentação.
“Se a gente pensar que isso faz parte de um tratamento e não de um capricho, é importante discutir políticas públicas para garantir alimentação segura às pessoas com doença celíaca”, afirmou.
O que diz a legislação
Em Santa Catarina, uma lei estadual de 2002 estabelece o dia 27 de setembro como o Dia Estadual dos Celíacos. Outra legislação prevê ações educativas, acompanhamento e merenda escolar especial para estudantes da rede pública com doença celíaca.
Em nível nacional, alimentos, cosméticos e medicamentos devem informar obrigatoriamente nos rótulos se “contêm” ou “não contêm glúten”. Mas, na prática, isso ainda não resolve um dos maiores desafios enfrentados pelos pacientes: o custo do tratamento.
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