Jovem de SC com lesão medular revela os bastidores do tratamento experimental com polilaminina
Eduarda Atkinson, de 23 anos, viu sua vida mudar após sofrer um acidente de carro em janeiro de 2026, em Jaraguá do Sul; agora, aposta na polilaminina e na reabilitação para reescrever sua história
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Em janeiro deste ano, a vida da designer Eduarda Atkinson, de 23 anos, mudou drasticamente após um grave acidente de trânsito em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, levá-la ao diagnóstico de uma lesão medular completa.
Ainda em recuperação no hospital em razão do grave acidente e após receber o laudo médico, uma conversa entre a equipe de enfermagem e a família abriu uma janela de esperança: a existência de uma pesquisa com um medicamento inovador que vinha se desenvolvendo no Brasil, a polilaminina.
A substância deriva da laminina, uma proteína extraída da placenta com capacidade de orientar a organização celular e regenerar o sistema nervoso, desenvolvida pela cientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio no laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) .
Segundo o estudo, pacientes lesionados que receberam o medicamento inédito recuperaram os movimentos, total ou parcialmente. Determinada a entender até onde a pesquisa poderia ser promissora, a família buscou o acesso – e conseguiu.
Desde então, Eduarda tornou-se a terceira paciente de Santa Catarina a receber a medicação. No dia 24 de março de 2026, a jovem se deslocou até o Paraná para receber a dose.
Uso compassivo e corrida contra o tempo para acessar a medicação
O caso de Eduarda enquadra-se no chamado uso compassivo. Conforme explica a professora Nathana Zierhut, do Centro Universitário Sociesc (Unisociesc), que acompanha a jovem no tratamento.
“O uso compassivo é quando o paciente entra, mas não está dentro do estudo científico para a publicação. Ele recebe a medicação antes de haver eficácia comprovada. Não existe um protocolo específico de tratamento estabelecido; é uma autorização para participar de algo ainda sob investigação”, explica ela.
A obtenção da dose, segundo a jovem, ocorreu em um momento de transição. Pouco após realizar o procedimento, a pesquisa ganhou forte repercussão nacional, gerando uma onda de procura por pacientes fora do perfil inicial indicado ao estudo, o que sobrecarregou o laboratório Cristália, único produtor mundial da polilaminina, o que levou a restrições mais severas.
“Casos como o meu, de uso compassivo de até 90 dias, estão sendo evitados ao máximo. A preferência é para protocolos dentro de 72 horas e somente de lesão torácica (T1 até T8)”, relata a jovem.
Rotina intensa de reabilitação e cuidados
Segundo a jovem, a aplicação veio acompanhada de diretrizes médicas específicas e uma rotina totalmente voltada à reabilitação. Foi iniciado um plano de 20 sessões semanais de fisioterapia divididas entre a Unisociesc, o Sistema Único de Saúde (SUS) e atendimento particular.
“É uma rotina bastante puxada, mas muito gratificante. Levando em consideração que a minha lesão é medular completa, há evoluções que [sem a polilaminina e a fisioterapia] eu não apresentaria”, destaca.
Jovem de SC com lesão medular revela os bastidores do tratamento experimental com polilaminina
— SCC10 (@scc10oficial) August 25, 2026
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O acompanhamento médico permanece rigoroso. O laboratório Cristália mantém contato a cada 15 dias para registrar dados sobre sensibilidade, eventuais dores ou alterações de saúde.
Ao completar seis meses do procedimento, Eduarda vai passar por uma reavaliação presencial com o médico integrante da equipe de pesquisa junto à professora Tatiana Sampaio. A meta é analisar o quadro estrutural da medula e averiguar se o diagnóstico permanece como lesão completa ou se passa a se enquadrar como incompleta.
Uso compassivo, Anvisa e gargalo judicial
Em nota emitida em abril, o laboratório Cristália esclareceu as regras vigentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) (RDC nº 38/2013) para programas de acesso expandido a grupos maiores de pacientes. Neste caso, é exigido que o produto esteja na fase 3 de testes.
Como a polilaminina está na fase 1, segundo a Anvisa e o laboratório Cristália, ambas alinharam que o uso compassivo deve seguir estritamente os mesmos critérios do estudo clínico original: pacientes entre 18 e 70 anos, com lesões torácicas completas (T2 a T10), ocorridas há menos de 72 horas e com indicação cirúrgica.
A Anvisa confirmou que a análise dos pedidos individuais de uso compassivo continua ocorrendo, levando em conta critérios como a gravidade da doença, ausência de alternativas no país e a relação risco-benefício para o paciente. Em nota, a agência informou:
“A avaliação dos pedidos de uso compassivo (pacientes graves, sem alternativa terapêutica existente) continua ocorrendo. O Uso Compassivo é regulamentado pela RDC nº 38/2013, como uma via regulatória que possibilita que uma empresa (laboratório patrocinador), mediante solicitação médica e prévia autorização da Anvisa, doe um medicamento novo ainda em desenvolvimento, para uso pessoal de paciente portador de doença debilitante grave e/ou que ameace a vida e sem alternativa terapêutica satisfatória disponível. Nestes casos a análise técnica da Anvisa acerca dos pedidos de autorização para inclusão de pacientes neste programa, deve considerar (Art, 5º):
I – gravidade e estágio da doença;II – ausência de alternativa terapêutica satisfatória no país para a condição clínica e seus estágios;
III – gravidade do quadro clínico e presença de comorbidades;
IV – avaliação da relação risco-benefício do uso do medicamento solicitado”.
Em consulta realizada pelo SCC10 em 21 de agosto, o Cristália informou que finaliza as etapas burocráticas para o início efetivo dos ensaios clínicos da Fase 1, cujas atualizações serão publicadas em seus canais oficiais.
A reportagem tentou levantar o número de pessoas que busca na Justiça de Santa Catarina o acesso ao tratamento com polilaminina no estado. Em nota, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), segundo a Corregedoria, afirmou:
“Não temos como fazer este levantamento. As pesquisas que realizamos são baseadas na classe, movimento e assuntos, conforme as Tabelas Processuais Unificadas do CNJ. O assunto é muito específico e não tem correlação com os registrados na TPU”.
Já o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) disse “não ter as informações solicitadas nas estatísticas”.
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