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DEMOCRACIA

De cédulas de papel à biometria: os 30 anos da urna eletrônica no Brasil e o protagonismo de SC nesta conquista

Muito antes da estreia nacional o estado catarinense já realizava experiências que ajudariam a moldar o futuro das eleições no país

• Atualizado

Pedro Corrêa

Por Pedro Corrêa

De cédulas de papel à biometria os 30 anos da urna eletrônica no Brasil e o protagonismo de SC nesta conquista | Divulgação.
De cédulas de papel à biometria os 30 anos da urna eletrônica no Brasil e o protagonismo de SC nesta conquista | Divulgação.

O som dura apenas um instante. O eleitor digita os números do candidato, confere a foto na tela e aperta a tecla verde. Em seguida, o tradicional “bip” confirma um dos atos mais importantes da democracia brasileira: o voto. A urna eletrônica, que revolucionou o sistema eleitoral brasileiro, é modelo para o mundo, completa 30 anos e Santa Catarina é protagonista desta história.

Muito antes da estreia nacional o estado catarinense já realizava experiências que ajudariam a moldar o futuro das eleições no país.

Santa Catarina pensava na informatização do voto desde os anos 1950

Embora a urna eletrônica tenha sido implantada oficialmente em 1996, as discussões sobre modernização do sistema eleitoral são muito mais antigas.

Segundo o diretor-geral do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC), Gonsalo André Ribeiro Agostini, os primeiros registros relacionados à informatização do voto no estado remontam à década de 1950.”Quando a gente fala em informatização do voto, isso em Santa Catarina já era pensado desde 1957″, relembra.

Na época, o catarinense João Pedro Gi apresentou ao TRE-SC um projeto de máquina mecânica de votação, considerada uma iniciativa pioneira para o período. A proposta não chegou a ser implementada nacionalmente, mas demonstra como o estado já buscava soluções para tornar o processo eleitoral mais seguro e eficiente.

Como eram as eleições antes da urna eletrônica

Daniel Conzi/ Agência Alesc

Para as gerações mais jovens, é difícil imaginar um Brasil sem votação eletrônica. Antes da modernização do sistema, as eleições eram realizadas com cédulas de papel depositadas em urnas de madeira, metal ou lona. Após o encerramento da votação, começava uma longa e complexa contagem manual.

Ginásios esportivos e espaços públicos eram transformados em grandes centros de apuração, reunindo servidores da Justiça Eleitoral, fiscais partidários, escrutinadores e voluntários. O processo podia durar dias.

“Você pegava uma urna cheia de cédulas e quatro pessoas precisavam contar tudo manualmente. Tinha voto em branco, voto nulo, interpretação de nome escrito errado. Era um processo extremamente complexo”, explica Gonsalo.

Além da demora, o modelo estava sujeito a erros humanos e fraudes durante a apuração. Foi justamente para enfrentar esses problemas que a Justiça Eleitoral passou a investir na informatização do voto.

Plebiscito em Santa Catarina abriu caminho para a votação eletrônica

Muito antes da primeira eleição oficial com urnas eletrônicas, Santa Catarina já testava sistemas informatizados de votação. Um marco histórico ocorreu há 35 anos, em 1991, durante o plebiscito que decidiu a emancipação de Cocal do Sul, então distrito de Urussanga.

Na consulta popular, não foram utilizadas cédulas de papel. Todo o processo de captação e totalização dos votos ocorreu eletronicamente. “Foi a primeira vez em que tivemos captação e totalização de votos sem uso de papel. Um instituto internacional que acompanhou o processo afirmou que provavelmente era a primeira experiência desse tipo na América Latina”, destaca o diretor-geral do TRE-SC.

A iniciativa abriu caminho para novos testes. Ainda na década de 1990, entre 1991 e 1995, o Tribunal Regional Eleitoral catarinense realizou mais de 300 experiências eletrônicas em consultas públicas e plebiscitos, utilizando sistemas desenvolvidos pela própria Justiça Eleitoral do estado.

O sucesso chamou a atenção do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que trabalhava na criação do modelo nacional de votação eletrônica.

Brusque entrou para a história da primeira eleição com urna eletrônica

A primeira eleição oficial com urnas eletrônicas aconteceu em 1996. Naquele ano, mais de 32 milhões de brasileiros votaram utilizando o novo sistema em 57 municípios. A regra previa que apenas cidades com mais de 200 mil eleitores participariam do projeto-piloto. Santa Catarina, entretanto, recebeu uma exceção histórica.

Além de Florianópolis e Joinville, que atendiam aos critérios estabelecidos, Brusque foi incluída na iniciativa como reconhecimento ao protagonismo catarinense na informatização eleitoral. “Brusque participou como uma deferência a Santa Catarina pela contribuição histórica ao processo eletrônico”, afirma Gonsalo.

A participação da cidade marcou definitivamente o estado na história da democracia digital brasileira.

Como nasceu a urna eletrônica brasileira?

Daniel Conzi/ Agência Alesc

Segundo o TSE, o projeto nacional começou a ganhar forma em 1995, com a união de especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), das Forças Armadas e de centros tecnológicos brasileiros para desenvolver uma solução totalmente adaptada à realidade do país.

Os objetivos eram claros: eliminar interferências humanas na apuração, eliminar as chances de fraudes, acelerar a divulgação dos resultados e aumentar o acesso ao voto.

O resultado foi um equipamento inovador para a época, combinando teclado numérico, tela e processador em um único dispositivo. O teclado inspirado nos telefones tradicionais, que eram muito usados na época, facilitou o uso por eleitores de diferentes níveis de escolaridade. “Foi uma solução criada para a realidade brasileira. Não foi importada. Ela foi desenvolvida exatamente para atender às nossas necessidades”, ressalta Gonsalo.

Da desconfiança à consolidação da confiança do eleitor

Como toda inovação tecnológica, a urna eletrônica enfrentou resistência nos primeiros anos. Parte da população demonstrava receio em relação à nova tecnologia e temia cometer erros durante a votação.

A adaptação, entretanto, foi rápida. “Independentemente do grau de instrução, todo mundo passou a votar da mesma forma. O número oito que você digita é igual para qualquer pessoa”, observa o diretor-geral do TRE-SC.

Uma das mudanças mais significativas foi a redução dos votos anulados por problemas de interpretação. Gonsalo relembra que nas eleições em papel, nomes escritos de forma incorreta podiam gerar dúvidas durante a contagem. Com o sistema eletrônico, a identificação do candidato passou a ocorrer automaticamente. “Antes alguém interpretava o que estava escrito. Agora não existe mais interpretação humana no voto.”

Como a urna eletrônica evoluiu em 30 anos

Ao completar 30 anos, a urna eletrônica brasileira acumula diversas camadas de segurança tecnológica.

Atualmente, o sistema conta com a criptografia avançada, assinaturas digitais, testes públicos de segurança, auditorias independentes, biometria, recursos de acessibilidade e outros mecanismos de verificação que dão segurança e legitimam o processo democrático.

Outro aspecto frequentemente destacado pela Justiça Eleitoral é que as urnas não permanecem conectadas à internet durante a votação. “Nunca se comprovou fraude na urna eletrônica. E isso acontece porque existe uma cadeia muito rigorosa de segurança, auditoria e verificação”, afirma Gonsalo.

Somente em Santa Catarina, cerca de 23 mil urnas passam continuamente por processos de manutenção e validação técnica entre uma eleição e outra.

Auditorias públicas garantem transparência na urna eltrônica

Além dos mecanismos tecnológicos, o sistema eleitoral brasileiro possui auditorias realizadas durante as próprias eleições. Em Santa Catarina, urnas sorteadas participam de uma auditoria paralela realizada na Assembleia Legislativa.

Nela, votos registrados em cédulas de papel são digitados simultaneamente nas urnas para verificar se os resultados apresentados pelo equipamento correspondem exatamente aos votos depositados.

O procedimento é aberto ao acompanhamento de representantes de partidos políticos, Ministério Público, imprensa e sociedade civil.

Biometria trouxe mais segurança para o eleitor

Outro avanço importante foi a implantação da biometria. Atualmente, cerca de 91% do eleitorado catarinense já possui cadastro biométrico, conforme dados do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina.

A tecnologia permite identificar o eleitor por meio da impressão digital, tornando o processo mais rápido e seguro. “A biometria otimizou muito o processo. Hoje o eleitor coloca o dedo, é identificado e já pode votar”, explica Gonsalo.

Além disso, ferramentas digitais como aplicativos da Justiça Eleitoral permitem acompanhar resultados e acessar informações eleitorais em tempo real.

A maior eleição informatizada do planeta

Nas eleições municipais de 2024, mais de 153 milhões de brasileiros utilizaram aproximadamente 570 mil urnas eletrônicas distribuídas em 5.569 municípios. Os números colocam o Brasil entre os maiores exemplos de votação eletrônica do mundo.

Por trás da agilidade na divulgação dos resultados existe uma gigantesca operação logística. “Uma eleição começa a ser preparada assim que a anterior termina. São mais de 32 mil atividades de planejamento”, destaca o diretor-geral do TRE-SC.

Cada equipamento recebe configuração específica da seção eleitoral onde será utilizado. Ao final da votação, o Boletim de Urna é emitido automaticamente e disponibilizado para consulta pública. “Antes mesmo de a Justiça Eleitoral consolidar o resultado, ele já está disponível para qualquer cidadão consultar.”

Três décadas após a estreia da urna eletrônica, Santa Catarina continua sendo referência em inovação dentro da Justiça Eleitoral.

O estado que realizou experiências pioneiras de votação informatizada, participou da primeira eleição eletrônica do país e ajudou a impulsionar a modernização do sistema eleitoral brasileiro mantém seu papel estratégico no desenvolvimento tecnológico da área. “Santa Catarina sempre esteve na vanguarda das ideias relacionadas ao processo eleitoral”, resume Gonsalo.

Eleições 2026 já mobilizam a Justiça Eleitoral

Com a aproximação das eleições de 2026, os preparativos já estão em andamento. Além da manutenção das urnas e dos processos de auditoria, o TRE-SC desenvolve campanhas de orientação para os eleitores sobre a ordem de votação, identificação biométrica e uso correto dos equipamentos.

A expectativa é que o sistema continue evoluindo sem abrir mão dos princípios que marcaram sua trajetória: segurança, transparência, acessibilidade e rapidez. “Hoje a urna é muito mais do que um equipamento. Ela virou parte da própria história da democracia brasileira”, conclui Gonsalo.

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