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Infância em Risco

Mais de 61 mil crianças e adolescentes foram estuprados em 2025, aponta Anuário Brasileiro de Segurança Pública

Crianças entre 10 e 13 anos são as maiores vítimas de abuso, com 225,5 casos para cada 100 mil habitante

• Atualizado

Pedro Corrêa

Por Pedro Corrêa

Mais de 61 mil crianças e adolescentes foram  estuprados em 2025, aponta Anuário Brasileiro de Segurança Pública | Foto: reprodução.
Mais de 61 mil crianças e adolescentes foram estuprados em 2025, aponta Anuário Brasileiro de Segurança Pública | Foto: reprodução.

A violência contra crianças e adolescentes continua crescendo no Brasil. É o que mostra a edição de 2026 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que reúne dados de ocorrências policiais registradas em todo o país ao longo de 2025.

Embora o levantamento apresente duas notícias positivas, a redução de 5,5% nos casos de estupro e estupro de vulnerável e a queda de 10,8% nas mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes, o cenário geral ainda preocupa. A maioria dos indicadores de violência aumentou, especialmente aqueles ligados ao ambiente familiar, à violência sexual e ao bullying.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os números revelam que a violência contra crianças e adolescentes segue profundamente enraizada na sociedade brasileira, apesar de uma maior capacidade das instituições de identificar e registrar esses crimes.

Maus-tratos e abandono mais do que dobraram em quatro anos

Os dados mostram que crimes relacionados aos cuidados e à proteção de crianças cresceram de forma significativa desde 2021.

O relatório mostra que os registros de maus-tratos aumentaram 106,1%, já o abandono de incapaz cresceu 176,7%. Somente em 2025, foram registrados 38.986 casos de maus-tratos e 21.811 ocorrências de lesão corporal em contexto de violência doméstica.

Para os pesquisadores, esse cenário evidencia que práticas violentas ainda são naturalizadas dentro das famílias, muitas vezes sob o argumento de “educar” ou “disciplinar” crianças.

Bullying e cyberbullying têm aumento expressivo

Outro dado que chama atenção é o crescimento dos registros de bullying e cyberbullying.

A anuário de segurança mostra que entre 2024 e 2025 o bullying aumentou 68,2%, já o cyberbullying, isto é, o crime cometido pela internet, cresceu 61,4%.

Ainda segundo o Anuário, parte desse crescimento está relacionada à entrada em vigor da Lei nº 14.811/2024, que passou a tipificar criminalmente essas condutas, aumentando a notificação dos casos.

Mesmo assim, o levantamento aponta que o ambiente escolar e as redes sociais se tornaram espaços cada vez mais frequentes para diferentes formas de violência entre crianças e adolescentes.

Dados da violência sexual continua alarmante

Apesar da primeira redução nos registros de estupro desde 2020, a violência sexual ainda apresenta números elevados.

O relatório aponta que em 2025, o Brasil registrou 61.076 casos de estupro e estupro de vulnerável contra crianças e adolescentes. Embora tenha ocorrido uma queda de 5,5% em relação a 2024, o número ainda é 41,8% maior do que o registrado em 2021.

Além disso, outras modalidades de crimes sexuais continuam crescendo. O levantamento aponta 4.063 casos de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil, 2.464 registros de aliciamento de crianças para fins sexuais e 1.281 ocorrências de exploração sexual infantil.

Desde 2021, os crimes relacionados ao material de abuso sexual infantil cresceram 176,7%, enquanto os casos de exploração sexual aumentaram 75,5%.

Crianças de 10 a 13 anos são as principais vítimas de estupro

Os dados mostram que cada faixa etária sofre diferentes tipos de violência.

As autoridades sustentam que as crianças menores concentram os maiores índices de abandono, maus-tratos e violência ligada ao ambiente familiar.

Já os adolescentes registram maior incidência de exploração sexual, violência doméstica, crimes praticados pela internet e bullying. No caso da violência sexual, a faixa entre 10 e 13 anos apresenta a maior taxa de vítimas, com 225,5 casos para cada 100 mil habitantes.

Queda nas mortes é considerada um sinal positivo

Entre os poucos indicadores que apresentaram melhora está a redução das mortes violentas de crianças e adolescentes.

Segundo o Anuário, houve uma queda de 10,8% nas mortes violentas intencionais (MVI) em relação ao ano anterior.

Mesmo assim, os pesquisadores alertam para outro dado preocupante: cresce a participação das mortes decorrentes de intervenções policiais entre adolescentes. Atualmente, esse tipo de ocorrência representa 23,1% das mortes violentas intencionais nessa faixa etária.

Violência ainda é naturalizada, afirma estudo

Na avaliação do coordenador da pesquisa, Cauê Martins, doutor em Sociologia pela USP e coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados revelam que a violência continua presente em diferentes espaços da vida de crianças e adolescentes.

Segundo ele, o problema aparece dentro das famílias, nas relações entre colegas e, em alguns casos, também nas ações do próprio Estado.

Ao mesmo tempo, o pesquisador destaca que o aumento de diversos indicadores também reflete uma maior capacidade das instituições e da sociedade de reconhecer, denunciar e registrar situações de violência que antes permaneciam invisíveis.

O levantamento foi elaborado com base em registros enviados pelas secretarias estaduais de Segurança Pública, por meio da Lei de Acesso à Informação, e reúne 13 indicadores de violência letal e não letal contra crianças e adolescentes em todo o país.

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