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Violência contra a Mulher

‘A Calha’: policial conta abuso e prisão do agressor

Jessica Martinelli lança "A Calha", obra autobiográfica sobre abuso na infância, superação e a prisão do homem que a violentou

• Atualizado

Roberto Gatti

Por Roberto Gatti

‘A Calha’ policial conta abuso e prisão do agressor | Foto: Bruno Collaço/Agência Alesc /Reprodução / Divulgação
‘A Calha’ policial conta abuso e prisão do agressor | Foto: Bruno Collaço/Agência Alesc /Reprodução / Divulgação

A policial civil Jessica Martinelli transformou uma das experiências mais traumáticas de sua vida em uma história de superação, conscientização e busca por justiça. No livro “A Calha”, lançado nesta quarta-feira (1º) na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), a autora relata o abuso sexual sofrido na infância, a longa batalha contra a impunidade e o momento em que, já como policial civil, participou da prisão do homem que a violentou.

A obra foi apresentada durante um evento promovido pela deputada estadual Luciane Carminatti (PT), que destacou a importância de levar o debate sobre violência contra mulheres e crianças para escolas, órgãos públicos e toda a sociedade.

O tema da violência só diminui quando deixa de ser tratado em silêncio“, destacou a parlamentar durante o evento.

Livro retrata trajetória de dor, superação e justiça

Em “A Calha”, Jessica narra os abusos cometidos por um amigo da família quando ela tinha apenas nove anos. As agressões aconteceram durante anos em um local conhecido como “calha”, às margens do Rio Uruguai, no Oeste catarinense, cenário que inspirou o título da obra.

O medo de denunciar o agressor e a preocupação com a saúde mental da mãe fizeram com que a violência permanecesse em silêncio por anos.

A denúncia só ocorreu quando Jessica tinha 16 anos, incentivada pela mãe de uma amiga. No entanto, a busca por justiça foi marcada por dificuldades desde o primeiro atendimento policial.

Vítima enfrentou descrédito e demora da Justiça

Além do trauma causado pelos abusos, Jessica relata ter enfrentado constrangimentos durante o atendimento inicial e a lentidão do sistema de Justiça.

O inquérito permaneceu parado por quatro anos antes de seguir para o Ministério Público, onde levou mais dois anos até que a denúncia fosse apresentada.

O agressor acabou condenado a sete anos e seis meses de prisão, mas permaneceu em liberdade por falta de vagas no sistema prisional.

Policial participou da prisão do próprio agressor

Já formada em Direito e aprovada no concurso da Polícia Civil, Jessica iniciou a carreira em Chapecó. Pouco tempo depois, descobriu que o mandado de prisão contra o condenado ainda estava em vigor.

Ao revisar o processo, participou da operação que localizou e prendeu o homem responsável pelos abusos sofridos durante sua infância.

Ao recordar o momento, Jessica contou que reviveu o medo da criança que foi, mas encontrou forças para concluir a missão.

Você não tem o direito de me olhar nos olhos. Aquela criança cresceu, é policial e tem uma pistola .40 na cintura. Eu mesma bati as grades da cela.

Livro busca incentivar denúncias e acolher vítimas

Além da atuação na Polícia Civil, Jessica percorre escolas, empresas e instituições públicas ministrando palestras sobre violência sexual infantil, violência doméstica e prevenção.

Ela também criou o Instituto A Calha, voltado ao acolhimento de vítimas e à promoção de ações educativas.

Segundo a autora, a publicação do livro já incentivou diversas mulheres a romperem o silêncio.

Recebi mensagens de mulheres que guardavam esse segredo havia mais de 30 anos. Muitas disseram que fui a primeira pessoa para quem conseguiram contar sua história.”

Para Jessica, denunciar faz parte do processo de reconstrução.

A denúncia ajuda a compreender que você é vítima e que não tem culpa de absolutamente nada do que aconteceu.

O que é o livro “A Calha”?

“A Calha” é uma autobiografia em que Jessica Martinelli narra a violência sexual sofrida na infância, os obstáculos enfrentados na busca por justiça e a trajetória que a levou a ingressar na Polícia Civil e participar da prisão do próprio agressor.

A obra também busca ampliar o debate sobre violência contra mulheres e crianças, incentivando denúncias, fortalecendo redes de apoio e promovendo conscientização em escolas e espaços públicos.

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