João Silva

Graduado em economia e relações internacionais pela Boston Univeristy. Mestre em relações internacionais na University of Chicago


João Victor da Silva Compartilhar
João Victor da Silva

Alienação de entidades empresariais terá consequências negativas para toda a sociedade

Entidades desempenham um papel crucial no funcionamento de uma sociedade democrática ao fomentar o debate público

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Foto: Pexels | Banco de Imagens
Foto: Pexels | Banco de Imagens

Qual é a finalidade das entidades empresariais? Muitos poderiam considerar esta pergunta como intrinsecamente retórica. Afinal, parece ser autoevidente que as entidades empresariais, assim como qualquer associação de classe ou social, têm como função primordial promover e defender os interesses de seus membros. As entidades empresariais desempenham um papel crucial no funcionamento de uma sociedade democrática ao fomentar o debate público, expressar de maneira mais incisiva a visão de seus membros e lutar pela preservação de seus direitos.

Lamentavelmente, algumas lideranças empresariais de Florianópolis parecem completamente alheias à realidade. No último ano, o governo federal implementou diversas medidas que afetam adversamente o setor empresarial, e, na maioria das situações, as entidades empresariais do município não se manifestaram nem mesmo com uma nota de repúdio diante dos ataques dirigidos ao setor. Um exemplo claro diz respeito à recentemente aprovada Reforma Tributária, que terá um impacto devastador sobre o setor de serviços, principal propulsor da economia florianopolitana. O setor de tecnologia, em especial, composto por mais de 7 mil empresas que empregam cerca de 38 mil funcionários na Grande Florianópolis, verá sua carga tributária mais que dobrar em muitos casos. Como ficarão as finanças da Prefeitura de Florianópolis, que depende de 30% de sua arrecadação proveniente do setor de tecnologia? Como sobreviverão esses empregos e empresas diante do aumento brutal da carga tributária? Para algumas de nossas entidades essas questões parecem não ter a devida importância.

O que aparenta ter relevância para certas entidades empresariais são os suntuosos bailes de gala de final de ano, debates intermináveis que contradizem os próprios interesses do empresariado, como a pauta ESG, e viagens luxuosas, que, geralmente, não resultam em nenhum contrato para os associados, além de outras frivolidades que contribuem minimamente para os interesses empresariais e da sociedade. Nossas lideranças empresariais, de maneira semelhante à classe política brasileira, parecem não utilizar seus cargos para promover os interesses daqueles que representam. Tornar-se presidente ou diretor de uma associação parece ter se transformado em um símbolo de status, uma promoção da imagem pessoal e, é claro, uma oportunidade para desfrutar dos privilégios oferecidos pelo cargo. Enquanto isso, os associados continuam sendo constantemente prejudicados pelo incessante desejo estatal de onerar e intervir nas relações privadas.

A alienação das nossas entidades empresariais terá consequências negativas para toda a sociedade. Nas últimas semanas, testemunhamos o Governo Federal revogando o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), impactando adversamente o setor que se destacou como o principal gerador de empregos no país em 2023. Além disso, presenciamos o aumento dos impostos sobre combustíveis, ampliando ainda mais os custos relacionados ao transporte e à logística. Não contente com suas iniciativas arrecadatórias, o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, está reinstaurando as contribuições sobre a folha de pagamento em diversos setores da economia, desconsiderando as medidas recentemente aprovadas pelo Congresso Nacional. Adicionalmente, enfrentamos restrições no uso de compensações tributárias. No âmbito municipal, observamos um aumento de 200% acima da inflação na taxa de coleta de lixo. Até o momento, nenhuma dessas medidas absurdas foi objeto de contestação por parte das autodenominadas “lideranças empresariais”.

É imperativo deixar de lado os interesses pessoais e dedicar-se integralmente aos anseios dos associados. A verdadeira liderança exige a disposição de enfrentar questões controversas e expor-se a desafios. Aqueles que evitam tais situações não podem ser considerados líderes e, por conseguinte, não devem ocupar posições de destaque em entidades empresariais. Os verdadeiros líderes são aqueles que priorizam os interesses coletivos sobre os individuais. Chegou o momento de abandonar as superficialidades e empreender esforços genuínos em prol dos associados. Diante da atual conjuntura política e institucional no Brasil, arriscamos trilhar o caminho da servidão. Se não agirmos agora, o sucesso de nossas empresas dependerá não da satisfação dos clientes, mas da habilidade de agradar políticos e burocratas. Se este não é o país que desejamos, devemos lutar para retomar o rumo da liberdade e prosperidade.

  • As opiniões do colunista não refletem, necessariamente, a opinião do Portal SCC10

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