Melissa Amaral

Professora, Doutora e Pós-doutoranda. Pesquisadora no grupo de pesquisa CoMovI, atua nas áreas de Sustentabilidade Organizacional, ESG, Empreendedorismo e Empoderamento da Mulher.


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Violência de gênero na política

EU CONHEÇO SEU PASSADO! Quando o ataque não é à ideia, ou à ação, mas ao fato de ser mulher

Quando o alvo é uma mulher, muitas vezes não se ataca apenas aquilo que ela pensa, diz ou faz. Ataca-se aquilo que ela é

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EU CONHEÇO SEU PASSADO! Quando o ataque não é à ideia, ou à ação, mas ao fato de ser mulher | Foto: reprodução.
EU CONHEÇO SEU PASSADO! Quando o ataque não é à ideia, ou à ação, mas ao fato de ser mulher | Foto: reprodução.

Estamos em período de campanha eleitoral. E basta acompanhar criticamente as redes sociais, os comentários nas notícias e as discussões políticas para perceber como, nesse período, os ataques se intensificam.

Mas há uma diferença que merece nossa atenção, quando o alvo é uma mulher, muitas vezes não se ataca apenas aquilo que ela pensa, diz ou faz. Ataca-se aquilo que ela é.

Te peço que faça um exercício simples: quando você quer ofender um homem na política, quais palavras aparecem? Corrupto. Ladrão. Incompetente. Desonesto. Mau administrador.

Esses ataques, corretos ou não, são geralmente relacionados à conduta, ao caráter ou ao exercício da função pública desse homem. 

Agora observe o que acontece quando o alvo é uma mulher.

Muito rapidamente aparecem referências ao corpo, ao peso, à idade, à aparência, à roupa, à sexualidade, aos relacionamentos atuais ou passados e à vida privada. Outra crítica frequente que acontece com uma frequência impressionante, principalmente quando a mulher está de mau humor ou é mais crítica com relação a alguma coisa falamos: Ela é mal amada. Eu nunca ouvi isso ser direcionado a um homem. 

Recentemente escutei uma frase que me fez pensar e que evidencia muito bem essa diferença: eu conheço o passado dele.

Se alguém diz isso sobre um homem público, o que imaginamos? Talvez negócios obscuros, problemas profissionais, alguma irregularidade, uma atitude questionável.

Agora troque apenas o gênero: eu conheço o passado dela.

Perceba como o significado pode mudar. O passado da mulher frequentemente ganha uma conotação moral e sexual. Com quem ela se relacionou? Como se comportava? Que vida levava?

E é claro que isso não acontece apenas na política.

Existe uma régua diferente para julgar homens e mulheres também quando falamos de aparência e envelhecimento.

Um homem precisa envelhecer bastante para que sua idade se transforme em característica central na maneira como é descrito, e mesmo assim não acontece sempre. 

Já para uma mulher, chegar aos 50 ou 60 anos já pode ser suficiente para ouvir que está “velha” para fazer isso, para aquilo. E basta não corresponder a um padrão corporal extremamente magro para que seu peso se torne assunto e, muitas vezes, instrumento de humilhação.

Não estou dizendo que chamar alguém de velho ou gordo seja aceitável. Não é. 

Aqui o ponto é outro: precisamos perceber como determinados atributos são usados de maneira diferente quando o corpo em julgamento é o corpo feminino.

Em uma campanha eleitoral, essa diferença se torna ainda mais importante.

Mulheres candidatas, parlamentares, prefeitas, governadoras ou ocupantes de qualquer espaço público devem ser criticadas. Evidentemente. Suas propostas, decisões, votos, discursos, resultados e condutas precisam estar sujeitos ao mesmo escrutínio aplicado aos homens.

Mas o que o peso de uma mulher diz sobre sua capacidade de administrar uma cidade ou de legislar?

O que suas rugas dizem sobre um projeto de lei?

O que sua roupa revela sobre sua competência?

E o que sua vida afetiva ou sexual tem a ver com sua capacidade de exercer uma função pública?

É aí que precisamos compreender a violência política de gênero.

Ela não está apenas na ameaça explícita. Pode aparecer também na tentativa de desqualificar uma mulher por ela ser mulher, recorrendo à sexualização, à aparência, à idade, à maternidade ou à vida privada como instrumentos para diminuir sua legitimidade no espaço público.

E esse problema começa muito antes das urnas.

Acontece quando pensamos que o corpo feminino está permanentemente disponível para avaliação coletiva. Quando envelhecer parece diminuir o valor de uma mulher. Quando sua vida privada se transforma em argumento contra sua voz pública.

Em época de eleição, vale prestar atenção não apenas em quem estamos criticando, mas no argumento que escolhemos para criticar.

Democracia precisa de divergência. Precisa de cobrança. Precisa de crítica construtiva. 

Mas lembrem-se: Corpo não é argumento. Idade não é argumento. Vida íntima não é argumento.

Uma das maneiras mais simples de reconhecer a violência de gênero é quando a gente pensa: eu faria esse mesmo ataque (com essas críticas) se essa pessoa fosse um homem?

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