Quinta-feira, 04 de março de 2021.

Araújo Gomes

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Coronel da Reserva da Polícia Militar de Santa Catarina e Especialista em Segurança Pública.
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“Novo cangaço”: assalto violento em Criciúma

A modalidade criminosa conhecida como “novo cangaço” é uma referência ao fenômeno do banditismo ocorrido no sertão do Nordeste do Brasil.

Data de Publicação: 01/12/2020 04:13
e atualizado em: 01/12/2020 07:29
Profissionais do Departamento de Trânsito e Transporte (DTT) foram feitos de reféns. Foto: Rede Social / Reprodução.

No início da madrugada a tranquilidade de Criciúma, no sul do Estado, foi quebrada pela ação de uma dezena ou mais de criminosos fortemente armados e deslocando em veículos potentes, atuando de forma coordenada para assaltar estabelecimentos bancários localizados na área central da cidade.

Logo no início da ação, veículos e reféns estrategicamente posicionados pela quadrilha foram utilizados para comprometer a capacidade de resposta imediata da polícia, bloqueando as ruas adjacentes, o acesso pela rodovia BR 101 através do Túnel e até mesmo a entrada do 9º Batalhão da Polícia Militar.

Fortemente armados, os assaltantes não só atemorizaram os moradores com uma grande quantidade de disparos como enfrentaram guarnições da Polícia Militar, ferindo inclusive um policial e um vigilante.

Realizado o roubo, fugiram rapidamente deixando para trás um malote com dinheiro.

Durante toda a madrugada, vídeos com cenas de veículos incendiados, reféns formando cordões humanos, veículos deslocando em alta velocidade e criminosos em pontos estratégicos passaram a circular imediatamente na internet.

Ao fundo, o ritmo cadenciado de tiros que ouvidos experientes reconhecem serem de fuzis de assalto nos calibres 7.62 e .556, extremamente letais pelo alcance, impacto e capacidade de ultrapassar barreiras físicas como portas, paredes e veículos.

O Novo Cangaço

Esta modalidade criminosa é conhecida como “novo cangaço”, uma referência ao fenômeno do banditismo ocorrido no sertão do Nordeste do Brasil, principalmente nos anos 1920 e 1930, onde seus membros vagavam em grupos, atravessando estados e atacando cidades, onde cometiam pilhagens, assassinatos e estupros.

Na versão contemporânea, quadrilhas organizadas mobilizam até três dezenas de criminosos para uma ação pontual e planejada com organização, armamento, equipamento e táticas paramilitares.
O “modus operandi” é semelhante nos diversos casos.

Primeiro utilizam veículos de grande porte, às vezes incendiados, além de reféns transformados em escudos humanos para bloquear vias e instalações da polícia local a fim de dificultar o acesso de forças de segurança para a pronta resposta e a chegada de reforços de outros bairros e até mesmo de outras cidades, formando um perímetro para a realização do assalto.

Em seguida, veículos potentes transportando os criminosos distribuem e posicionam grupos armados para fazer a contenção contra eventuais intervenções policiais e assustar a população com o disparo continuado de suas armas.

Finalmente, o grupo principal toma o alvo do roubo, um banco ou centro de distribuição de numerário previamente estudado, roubando grandes quantidades de dinheiro.

Terminada a ação, fogem rapidamente e se dispersam segundo um plano pré-estabelecido, abandonando e às vezes incendiando os veículos expostos na ação para despistar a polícia e destruir provas do crime.

A resposta das forças policiais

A forma mais eficiente e segura de combater esta modalidade criminosa é por meio do uso de inteligência policial para identificar, monitorar, antecipar e neutralizar estas quadrilhas antes que a ação ocorra, o que normalmente é difícil quando uma quadrilha de outra área começa a atuar em uma nova região ou quando uma nova quadrilha se forma.

Entretanto, ocorrido o assalto dois fatores são fundamentais para o sucesso da resposta policial.
O primeiro, a capacidade de responder de forma rápida, dura e agressiva à ação em andamento por meio de recursos operacionais locais, regionais e a mobilização de tropas especializadas para confrontar o máximo de grupos criminosos e cercar rapidamente a região.

O segundo, a competência para preservar e colher rapidamente provas e evidências a serem analisadas pelos especialistas do Instituto Geral de Perícia, investigadores das Delegacias Especializadas da Polícia Civil e Unidades de Inteligência da Polícia Militar a fim de identificar a quadrilha que atuou, seus integrantes e elementos que possibilitem a prisão dos criminosos, apreensão das armas e recuperação do dinheiro.

Em Santa Catarina, as forças policiais têm por padrão desenvolver os dois eixos de atuação com grande competência e as quadrilhas, mais cedo ou mais tarde são identificadas e neutralizadas, o que coloca o Estado entre os que possuem menor incidência de crimes desta modalidade.

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Comentários

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Jóice da Rosa

Então Comandante, falaste uma coisa, que pensei mto: cadê a inteligência? Será que ninguém tinha noção disso?E tbm, o armamento desses vagabundos, são mto superiores aos da PMSC!
Volta, por favor!

Guillermo Moral

Na Argentina chamamos “operação de commandos”(forças especiais) , quadrilha de profissionais que usa armas e táticas militares
…milicia tal vez ?

Nazareno Marcineiro

Parabéns pelo lúcido relato dos fatos, cel Araújo Gomes. Seu texto esclarece ao leitor com informações equilibradas e verdadeiras, limitando o espaço de especulação descabida e especulativa.

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