Tutores acusam Hospital Cão Orelha de negligência com pet; prefeitura nega quadro clínico de urgência
O prontuário do hospital registra que o paciente estava clinicamente estável, sem indicação de emergência, mas a família contesta com documentos
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A busca por atendimento para um animal doente no Hospital Veterinário Municipal Cão Orelha, de Florianópolis, terminou em uma disputa de versões entre tutores e a equipe responsável pelo atendimento.
Os tutores afirmam que o animal apresentava sinais graves, com vômito e diarreia com sangue, e que o atendimento demorou a ocorrer. Porém, o prontuário do hospital registra que o paciente estava clinicamente estável, sem indicação de emergência, e que a equipe não viu o sangramento relatado pela família.
Diante do impasse, os tutores levaram o cão Melo para um hospital veterinário particular, onde acabou internado após ser diagnosticado com alterações gastrointestinais e iniciar tratamento.
O SCC SBT e o SCC 10 foram atrás de respostas para explicar como funciona o protocolo de classificação de risco do hospital público, quais são os direitos dos tutores que utilizam o serviço e o que a legislação prevê sobre a proteção e o atendimento aos animais.
O que relatam os tutores
Segundo os responsáveis pelo cão, Melo apresentava diarreia havia cerca de dois dias quando foi atendido pela primeira vez. Eles afirmam que, na consulta, foi realizado um teste rápido para giárdia, que teve resultado negativo. O animal recebeu medicação para enjoo e foi liberado com prescrição de probiótico, dipirona e outro medicamento, além da orientação para retornar caso houvesse piora.
Ainda conforme os tutores, poucas horas depois o pet piorou. Os responsável disseram que o cão passou a apresentar diarreia com sangue e episódios de vômito com sangue, motivo pelo qual retornaram ao Hospital Veterinário Cão Orelha.
Os responsáveis afirmam que, apesar do estado do animal, houve demora no atendimento. Segundo o relato, Melo chegou a sangrar na recepção e, mesmo após a equipe informar inicialmente que se tratava de um caso emergencial, o atendimento não teria sido priorizado.
Os tutores disseram ainda que o cão foi levado ao consultório por conta da insistência deles. Melo permaneceu cerca de dez minutos em avaliação e recebeu apenas medicação para enjoo, retornando em seguida à recepção, onde voltou a vomitar.

A tutora afirma que mostrou o sangue à médica veterinária e pediu uma nova avaliação, mas teria sido informada de que o caso não seria considerado grave porque o animal não apresentava febre. Diante da situação, a família decidiu procurar atendimento em um hospital veterinário particular.
Atendimento na rede particular
De acordo com o resumo de internação do hospital particular, Melo foi classificado como um caso urgente, apresentando vômitos e hematoquezia, que é a presença de sangue nas fezes.
O relatório informa que o animal chegou estado grave, após ficar cerca de 48 horas sem conseguir se alimentar normalmente. Durante a internação, exames de imagem identificaram alterações gastrointestinais importantes, incluindo inflamação no duodeno (duodenite) e espessamento da parede intestinal. O laudo também recomendou a realização de endoscopia para investigação complementar.
O cão ficou internado recebendo hidratação, medicação intravenosa e monitoramento clínico.
No dia seguinte, um exame apontou resultado positivo para Ehrlichia canis, doença transmitida por carrapatos, quando foi iniciado tratamento específico. Após apresentar melhora clínica, Melo recebeu alta médica e está em casa, ao lado dos tutores.
O que diz o prontuário da DIBEA
O prontuário do Hospital Veterinário Cão Orelha apresenta uma versão diferente dos fatos relatados pelos tutores.
Segundo o documento, na primeira consulta Melo apresentava quadro de vômito e diarreia, porém estava hidratado, sem febre, com sinais vitais estáveis e sem indicação de atendimento emergencial naquele momento.
O hospital informa que foram realizados testes rápidos para giárdia e parvovirose, ambos com resultado negativo. Também registra que foi prescrito tratamento sintomático, orientado o retorno em caso de piora e solicitado exame de ultrassonografia abdominal para investigação complementar.
Sobre o retorno do animal à unidade, o prontuário afirma que a tutora solicitou nova avaliação devido aos episódios de vômito e diarreia. Entretanto, registra que a equipe não presenciou vômitos ou sangue nas fezes dentro do hospital e que essas informações não chegaram ao médico veterinário responsável.
Ainda conforme o documento, Melo foi classificado como paciente clinicamente estável, enquanto outros animais considerados em estado grave receberam prioridade no atendimento conforme o protocolo de classificação de risco.
O prontuário informa que, quando a equipe retornou para realizar nova avaliação, o cão já havia deixado a unidade.
Tutora questiona registros do atendimento
Após solicitar cópia do prontuário, a tutora afirma ter encontrado informações que, segundo ela, não correspondem ao que ocorreu durante o atendimento.
Ela contesta o registro de que teria sido encaminhada para ultrassonografia e também a informação de que a equipe não teria presenciado o sangramento ou sido comunicada sobre o quadro clínico.
Segundo a responsável, existem vídeos gravados no local que mostram o estado do animal e o sangue na recepção. Ela também defende que as imagens das câmeras de segurança do hospital podem contribuir para esclarecer o caso.
Como funciona o atendimento no Hospital Veterinário Cão Orelha
O Hospital Veterinário Municipal Cão Orelha integra a estrutura da Diretoria de Bem-Estar Animal (DIBEA), órgão da Prefeitura de Florianópolis responsável pelas políticas públicas de proteção animal.
O atendimento gratuito é destinado a grupos específicos, como famílias inscritas no CadÚnico, protetores independentes cadastrados, responsáveis por animais comunitários registrados, pessoas em situação de rua acompanhadas de seus animais e tutores de animais adotados pela própria DIBEA.
Ao chegar ao hospital, o animal passa por uma triagem clínica e recebe uma classificação de risco. Conforme o protocolo da unidade, os casos com risco iminente de morte são atendidos imediatamente. Nos demais, a prioridade é definida pela gravidade do quadro clínico, e não pela ordem de chegada.
Quais são os direitos dos tutores?
Segundo a advogada especialista em bem-estar animal, Mariana Silva, embora não exista uma lei federal que garanta atendimento veterinário público gratuito para todos os animais, os tutores que utilizam serviços públicos possuem direitos assegurados pelos princípios da administração pública.
Entre eles estão receber informações clara sobre o estado de animal e os critérios de classificação de risco, quando houver protocolo de triagem, além da cópia do prontuário.
Segundo Mariana, a legislação brasileira também prevê garantias de proteção aos animais. “A Constituição Federal determina que o poder público deve proteger a fauna e impedir práticas que submetam os animais à crueldade. Além disso, a Lei de Crimes Ambientais criminaliza os maus-tratos e a Lei Sansão aumentou as penas para casos envolvendo cães e gatos”, afirma.
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