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Arte Brasileira

Um coração na boca: Brasil leva muita arte para a Bienal de Veneza

O Brasil na Bienal de Veneza trouxe esses corpos de tantas formas e jeitos

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• Atualizado

Obra: Jonathan de Almeida/Divulgação
Obra: Jonathan de Almeida/Divulgação

“Com o coração saindo pela boca” vivemos. Quem nunca quase morreu de susto, de medo, de vontades, de boleto vencendo, de dinheiro de menos, de filho nascendo, de alguém sofrendo, de um amor morrendo, de alegria, de corpo tremendo? Tem o coração da correria, tem o coração da calmaria, mas sempre tem coração.

Poderia falar da Bienal de Arte de Veneza por vários trajetos e ruelas, mas o corpo, o humano, o da natureza, o social, o corpo-continente me raptou a atenção e o gosto. “Bunda mole”, “da boca pra fora”, “borboleta na barriga”, “barriga cheia”, “barriga vazia”, “molhar a mão”, “comer com os olhos”, “ponta da língua”… às vezes para dizer é só olhar esse corpo imagem e arte e silenciar porque o corpo fala, mesmo que a gente não queira.

Quando a razão dorme o corpo sonha. Nenhuma racionalidade iluminista se sustenta diante do desejo. Ela pode tentar controlá-lo e silenciá-lo, mas o corpo cobra mais tarde. O desejo é um mistério, o consenso possível sobre ele é ser uma espécie de força que nos aproxima de nós e dos outros, um Eros às vezes esquecido, às vezes maldito, mas sempre pulsando e movimentando, num sonho, no corpo, na alma.

E ver isso tudo latente em arte convoca e faz eco. Se o brasileiro Jonathan de Andrade transforma o corpo em verbo com suas imagens de “céu da boca” e “dedo pobre”, a brasileira Solange Pessoa potencializa, com sua arte que lembra pinturas rupestres, a delicada e intensa relação entre o corpo-paisagem e o corpo sensorial. O preto e branco de Pessoa ressalta as dicotomias que compõem, em conjunto, isso que chamamos viver. É a saúde e a doença, o velho e o novo, a vida e a morte, o divino e o vulgar.

Percorrer a instalação do Brasil com as obras de Andrade é ver algo da infância e de um dicionário de sentidos compartilhado. É olhar para o lado e querer abraçar o estranho, que lendo a mesma expressão que você sorriu. “Fogo nos olhos” ela dizia traduzida e explicada em imagem e texto; e, acredite, o estranho-estrangeiro era um alemão que entendeu o que eu já sabia desde os meus tempos de atleta. O que comunica é um mistério, mas sabemos que o corpo faz isso bem.

A instalação “Poemas”, obras de 1979, de Lenora de Barros, consegue, sem palavra alguma, comunicar e mostrar a ponte entre língua e linguagem. As fotografias montam um jogo de sentidos. E percebemos que estamos “lambendo os beiços” enquanto olhamos um de seus poemas silenciosos. Eis aí outra marca desta Bienal, uma temporalidade feminina, um ir e vir sem tempo certo. O que um dia já foi hoje está sendo. Muitas obras de décadas passadas mostram que o tempo opera diferente na arte.

Se a arte não tem tempo, nem idade, o corpo é matéria e espaço necessário para o tempo ser percebido e operar a vida. Os desenhos potentes de Rosana Paulino parecem evidenciar esse sendo em corpos de mulheres negras fundando-se com a natureza, criando raízes e florescendo num belíssimo trabalho que remete à persistência, ao renascimento cotidiano e às origens da humanidade. Reinventar-se é “vida que chama”. Poderíamos até fazer um hashtag moderninho, mas não precisa porque a vida chama mesmo. E ter na Bienal as pinturas de Jaider Esbell, o artista indígena morto precocemente no ano passado, é um “soco no estômago”.

Tempo e espaço. Vida e morte. Preto e branco. Tudo aparentemente tão dicotômico, ao mesmo tempo próximo, tão a mesma coisa. Um respirar num constante constranger e expandir, o inspirar e o expirar e a necessária caixa toráxica, o espaço para que tudo aconteça. Eis o corpo mais uma vez, a matéria-prima para os verbos. Me desculpem iluministas, mas somos vísceras mais que razão, uma bagunça com inconsciente, sonhos e desejos. Sem esse lugar corpo não existe, nem mesmo o tic-tac do relógio, nem os ritmos, nem a história. Algo precisa encaixar-se, para, inclusive, desencaixar-se quando assim for a hora, quando assim for do desejar, quando assim tiver que ser e sendo.

A subversão presente nesta bienal é a do acolhimento aos sonhos, desejos e a corpos ignorados que acabam por criar números abissais de mortes e mais uma guerra nos calcanhares da Europa. Ãs vezes uma instalação é um silêncio de gritos inaudíveis de pessoas que não podem ser nominadas. Corpos anônimos, vidas nuas. O prédio da Rússia estava lá, mas vazio. A guerra ocupou a arte. E esse vazio fala por si.

Corpo mutável, corpo espaço, movimento, corpo saudade, corpo oferenda, santo e pecador, corpo terra, corpo social, corpo outro. Corpo que perece na guerra dos outros. Corpos hiperrealistas num mundo cujo real precisa do simbólico e do imaginário. Corpo que verte, de ver-ter novas versões. Perversões. Subversões.

Olhar o corpo é tomar para si a consciência de que a arte se faz com as mãos e com o coração na boca. Que nossas angústias e sintomas e ansiedades são pistas de algo silenciado, que as dores nas ancas talvez sejam o sonho de dançar, que as juntas a latejar talvez sejam os pés querendo percorrer outros mundos, que o coração quando entope está dizendo que algo não flui bem… A arte está a nos provocar a olhar esse dizível presente num corpo que sente prazer e dor e sofre com os adestramentos sem pudores. Esse corpo versão é subversão porque incomoda, é um desvio de reta, fura o planejamento, é um vagar sem cartografia fixa, e isso é um assombroso. Uma nova versão talvez apenas seja um outro lugar.

O Brasil na Bienal de Veneza trouxe esses corpos de tantas formas e jeitos que era impossível não ter orgulho das nossas multicores e formas. A potência está nesse universo desencaixado e por isso tão criativo e sobrevivente. Quem nunca rebolou para dar conta do boleto e da própria vontade? Ser brasileiro não é para amadores, mas nossa arte é de amor e dor e tá lá deixando todo mundo com “água na boca”.

*Por Samantha Buglione

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