Atrás das portas fechadas: a cada hora, mais de uma criança é vítima de violência sexual em SC
77% das vítimas de estupro no Brasil têm menos de 14 anos
• Atualizado
Atrás de portas fechadas, onde deveria existir abrigo, muitas crianças encontram perigo. O quarto que guarda brinquedos, desenhos na parede e histórias antes de dormir, também pode esconder silêncios profundos, daqueles que não aparecem nos medos da rua nem nas manchetes do cotidiano. Em Santa Catarina, a violência sexual infantil tem CEP, rotina e, na maioria das vezes, rosto conhecido.
Os números impressionam: mais de 12,5 mil vítimas registradas entre 2024 e os primeiros meses de 2026. Esses mesmos números, não conseguem traduzir sozinhos o peso dessa realidade. Porque, por trás de cada estatística, existe uma infância interrompida cedo demais. Uma confiança quebrada dentro de casa. Um trauma que muitas vezes cresce em silêncio por anos.
Longe da imagem do agressor desconhecido escondido em esquinas escuras, os dados revelam um cenário muito mais cruel: o perigo mora dentro do ambiente familiar, sentado à mesa, convivendo diariamente com a vítima, protegido pelo silêncio, pelo medo e pela dificuldade de denunciar.
Joinville, Florianópolis e Blumenau lideram os registros no estado. Mas especialistas alertam que o verdadeiro mapa da violência sexual infantil em Santa Catarina é ainda maior, e invisível. Estima-se que apenas uma pequena parcela dos casos chegue oficialmente às autoridades. O restante permanece escondido atrás de paredes, ameaças e segredos que crianças pequenas ainda nem conseguem explicar em palavras.
Os números contam apenas parte da história da violência sexual infantil em Santa Catarina
Dados do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (CEDECA-SC) mostram que quase 70% dos abusos acontecem no ambiente familiar. Pais, padrastos, avôs, tios, amigos próximos, pessoas em quem a vítima confiava, aparecem entre os agressores.
O CEDECA-SC mostra uma realidade ainda mais cruel: muitas vítimas continuam convivendo diariamente com quem as violentou. Há crianças de 6, 7 e 8 anos entre os registros. Há adolescentes que silenciam por medo, culpa ou ameaça. Há meninos que nunca denunciam porque aprenderam que precisam esconder a dor. Há meninas que crescem acreditando que o próprio corpo deixou de lhes pertencer.
Enquanto isso, o crime se moderniza. Se antes o perigo parava na porta de casa, hoje ele entra pelas telas do celular. Redes sociais, jogos online e aplicativos de mensagens se transformaram em atalhos para criminosos que manipulam, aliciam e chantageiam crianças dentro do próprio quarto delas. A internet abriu uma janela direta entre predadores e infâncias vulneráveis.
Mais de 12,5 mil vítimas em pouco mais de dois anos

Os dados da Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina escancaram a dimensão da crise no Estado. Em 2024, foram 5.570 vítimas, o número caiu em 2025, mas continua alarmante, com 5.131 vítimas. E a realidade dos primeiros meses de 2026, são ainda mais alarmantes, com 1.812 casos.

Joinville, no Norte do Estado, lidera o ranking estadual, com 679 registros de vítimas. Florianópolis aparece na sequência, com 595 casos. Blumenau no Vale do Itajaí, Chapecó no Oeste, e Itajaí também figuram entre os municípios com maior volume de ocorrências.
Os números acompanham uma tendência nacional alarmante. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 aponta que o Brasil registrou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável em 2024, o maior número desde o início da série histórica. Do total de vítimas no país, 77% tinham menos de 14 anos. Em Santa Catarina, 67% dos casos são de crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos.
O perigo mora dentro de casa
O principal padrão identificado pelas autoridades desmonta um dos maiores mitos sobre a violência sexual infantil: a ideia de que o agressor é um estranho escondido na rua.
Nos boletins analisados pela SSP, o termo “interior do ambiente” aparece repetidamente como local do crime. Isso significa que a maior parte dos abusos ocorre dentro de residências, longe dos olhos do público.
Dados do CEDECA confirmam o cenário em Santa Catarina. 67,6% dos casos registrados em Santa Catarina aconteceram dentro da própria casa da vítima. O relatório também aponta que 84,7% dos agressores são familiares ou conhecidos da criança.
A cartilha de combate ao abuso e exploração sexual infantil da Defensoria Pública de Santa Catarina destaca que 40% dos abusos são cometidos pelo pai ou padrasto da vítima. Em 87% dos casos, os suspeitos são homens entre 25 e 40 anos.
“Muitas vezes, a violência acontece dentro de casa, praticada por pessoas em quem a criança confia. E é justamente isso que torna esse crime tão difícil de ser revelado”, destaca a delegada, em um trecho da reportagem especial produzida pelo SCC SBT, em diversas mãos, inclusive do autor desta matéria online, sobre o tema.
Crianças pequenas estão entre as vítimas de violência sexual em Santa Catarina

Os dados revelam uma realidade ainda mais devastadora: a violência sexual não poupa a primeira infância. Há registros envolvendo crianças entre 0 e 4 anos. A faixa etária mais atingida em Santa Catarina é a de 10 a 14 anos. Quase 37% das vítimas têm entre 10 e 13 anos. Outros 30% são adolescentes de 14 a 17 anos.
As meninas representam a maioria absoluta das vítimas. Segundo o CEDECA, 88,3% dos casos de violência sexual registrados em Santa Catarina envolvem vítimas do sexo feminino. A incidência nelas é 6,7 vezes maior do que entre os meninos.
Ainda assim, especialistas alertam que os casos envolvendo vítimas masculinas sofrem forte subnotificação devido ao medo, vergonha e pressão familiar.
Estupro de vulnerável lidera registros no Brasil
Entre os principais crimes registrados estão estupro de vulnerável, importunação sexual, exploração sexual infantil e a produção de conteúdo pornográfico envolvendo crianças e adolescentes.
O estupro de vulnerável é o crime mais recorrente e grave. Pela legislação brasileira, qualquer ato sexual envolvendo menores de 14 anos configura o crime, mesmo que o ato tenha sido praticado sem violência física ou suposto consentimento.
Especialistas alertam que a violência sexual raramente acontece uma única vez. Dados nacionais mostram que 73% dos casos registrados no Disque 100 indicam abusos repetidos.
O abuso também está na internet
Se antes o perigo estava restrito ao ambiente físico, hoje ele também atravessa telas. A internet se tornou uma das principais portas de entrada para o aliciamento de crianças e adolescentes.
Segundo dados do CEDECA, houve aumento de 37,5% nas denúncias de imagens de abuso sexual infantil na internet no Brasil em 2023. Os crimes acontecem principalmente por aplicativos de mensagens instantâneas e redes sociais.
Os criminosos utilizam técnicas como “grooming“, que é a manipulação psicológica para conquistar a confiança da vítima e “sextorsão“, que é a chantagem com imagens íntimas.
A cartilha da Defensoria Pública alerta que adultos usam perfis falsos para se aproximar de adolescentes e induzir o compartilhamento de fotos e vídeos íntimos. “Muitos pais ainda não conseguem dimensionar os riscos do ambiente digital”, alertam especialistas ouvidos na reportagem especial.
Os sinais silenciosos que muitas vezes passam despercebidos
Nem sempre a criança consegue verbalizar o que sofreu. Por isso, mudanças bruscas de comportamento costumam ser os primeiros pedidos de socorro.
Especialistas apontam como sinais de alerta para o isolamento, medo excessivo, agressividade, automutilação, queda no rendimento escolar, regressão comportamental, perda de sono, tristeza repentina e o medo da criança ou adolescente ficar a sós com determinadas pessoas.
Em muitos casos, desenhos feitos na escola, frases soltas ou mudanças repentinas de hábitos são os únicos indícios de que algo está errado. A cartilha da Defensoria Pública destaca que o silêncio costuma ser consequência do medo, da vergonha e das ameaças feitas pelo agressor.
A rede de proteção e o caminho da denúncia em Santa Catarina
Quando a violência é descoberta, começa outra batalha: interromper o ciclo de abuso e impedir que o trauma acompanhe a vítima pelo resto da vida.
O caminho da denúncia geralmente passa pelo Conselho Tutelar, Polícia Civil, Delegacias de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso, Ministério Público, Defensoria Pública e a rede de saúde e assistência social.
Nos casos em que o ambiente familiar representa risco, a criança pode ser encaminhada para acolhimento institucional.
A Lei Federal 13.431/2017 estabelece o sistema de garantia de direitos para crianças e adolescentes vítimas de violência e prevê mecanismos como a escuta especializada e o depoimento especial, evitando a revitimização durante o processo.
Além das investigações, o acompanhamento psicológico é considerado essencial para ajudar vítimas a reconstruírem vínculos, autoestima e segurança emocional.
Uma violência invisível
Especialistas são unânimes ao afirmar: os números oficiais representam apenas uma fração da realidade. Estimativas apontam que apenas 7,5% dos casos de violência sexual infantil chegam às autoridades.
Ou seja, por trás das mais de 12,5 mil vítimas oficialmente registradas em Santa Catarina, existe uma violência muito maior, invisível, abafada e silenciosa. Uma violência que continua acontecendo enquanto alguém escolhe não ouvir.
Casos de abuso e exploração sexual infantil podem ser denunciados de forma anônima pelos seguintes canais:
- Disque 100;
- Polícia Civil — telefone 197;
- Disque denúncia — 181;
- Conselho Tutelar;
- Delegacia Virtual de Santa Catarina;
- Ministério Público;
- SaferNet, para crimes virtuais.
Especialistas destacam a importância de acolher a vítima, acreditar no relato e denunciar rapidamente pode ser decisivo para salvar uma infância.
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