A menos de 20 km do condomínio de Neymar e Virginia, uma ilha do RJ com mais de 700 gatos selvagens se torna uma ameaça aos golfinhos da região
Ilha Furtada, em Mangaratiba, ficou conhecida pela população de gatos abandonados, onde os pesquisadores investigam agora os impactos ambientais e os riscos para a vida marinha
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Você já ouviu falar na Ilha dos gatos? O som das ondas, a Mata Atlântica e uma paisagem de cartão-postal escondem uma história bem menos paradisíaca. Em uma das regiões mais badaladas do litoral brasileiro, onde ilhas paradisíacas são endereço de famosos e milionários, entre eles as mansões de Neymar e Virgínia, existe uma que chama atenção por um motivo bem diferente.
Perto de Angra dos Reis, em Mangaratiba, na Costa Verde do Rio de Janeiro, a Ilha Furtada ganhou um apelido curioso Ilha dos Gatos, e se tornou lar de centenas de felinos que vivem soltos pela mata. A história começou há décadas, quando uma família teria deixado a ilha e, junto com a partida, ficaram para trás alguns gatos. A ilha se transformou em uma enorme colônia de gatos e, hoje, também levanta preocupações sobre o impacto desses animais no meio ambiente e na vida marinha.
Como surgiu a Ilha dos Gatos?

A origem da população de felinos é cercada por relatos e mistérios ao longo das décadas. A versão mais conhecida aponta que, em meados da década de 1950, uma família tentou morar na Ilha Furtada e levou alguns gatos para o local.
A tentativa de ocupação não teria dado certo. A família voltou para o continente, mas os animais ficaram na ilha. Sem controle populacional e isolados do ambiente urbano, os gatos começaram a se reproduzir geração após geração. Ao longo do tempo, muitos se tornaram ferais, ou seja, passaram a viver sem domesticação e com pouco ou nenhum contato com seres humanos.
Mas há um ponto importante: essa história é tratada como a principal versão sobre a origem dos primeiros gatos, mas não há prova documental sobre isso. A própria literatura sobre o caso aponta que não se sabe com precisão como os primeiros animais chegaram à ilha.
De 250 para mais de 700 felinos na Ilha dos Gatos
Os números ajudam a dimensionar o problema. Em 2012, a população de gatos na ilha foi estimada em cerca de 250 animais. Em 2020, uma estimativa da então Subsecretaria de Proteção e Bem-Estar Animal do Estado do Rio de Janeiro apontava aproximadamente 750 gatos no local.
Já discussões mais recentes sobre o problema, realizadas em 2025, continuaram tratando a ilha como um local de superpopulação de felinos, com uma população estimada em mais de 700 animais. Isso significa que o número de 750 gatos deve ser entendido como uma estimativa divulgada anteriormente, e não necessariamente como uma contagem exata e atualizada animal por animal.

Por que a Ilha dos Gatos preocupam ambientalistas?
A imagem de uma ilha tomada por gatos pode parecer curiosa nas redes sociais. Vídeos do local chegaram a viralizar justamente pela cena incomum de felinos surgindo entre as pedras quando embarcações se aproximam.
Por trás da curiosidade, porém, existe um problema ambiental.
Segundo os biólogos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ), os gatos são uma espécie doméstica introduzida naquele ecossistema e podem predar animais nativos, especialmente aves, pequenos répteis e outros vertebrados. A superpopulação também aumenta a pressão sobre a fauna silvestre e cria desafios relacionados à alimentação, doenças, reprodução e bem-estar dos próprios felinos. Em uma audiência pública realizada em dezembro de 2025, especialistas discutiram justamente os riscos ambientais e sanitários provocados pela interação dos gatos com a fauna da ilha.
O problema, portanto, não é apenas a quantidade de animais. Centenas de gatos vivendo em um espaço isolado, sem manejo, acesso regular a cuidados veterinários ou controle reprodutivo, formam uma situação complexa tanto para a proteção animal quanto para a conservação ambiental, apontam os veterinários e ambientalistas que estudam a Ilha dos Gatos.
A Ilha dos Gatos traz risco para a vida marinha?

O biólogo marinho Eduardo Silva salienta que há muitos riscos para os animais marinhos. “O impacto mais direto dos gatos ocorre sobre a fauna terrestre e costeira da ilha, principalmente por meio da predação de espécies nativas. Mas o desequilíbrio em um ambiente insular pode ter consequências mais amplas para todo o ecossistema costeiro” avalia.
Por isso, especialistas discutem o caso dentro do conceito de “Uma Só Saúde”, que considera a relação entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente. A preocupação inclui a pressão sobre a biodiversidade, a circulação de doenças e os efeitos de uma população animal introduzida e sem controle em uma área de Mata Atlântica cercada pelo mar.
Segundo os pesquisadores, não é correto, porém, afirmar que os gatos representam sozinhos uma ameaça direta e comprovada a toda a vida marinha da Baía de Angra dos Reis. Os dados disponíveis apontam com mais clareza para riscos ao ecossistema da ilha, à fauna silvestre e ao equilíbrio ambiental da região costeira.
Ilha paradisíaca virou símbolo de abandono animal
Outro agravante é que a Ilha dos Gatos não ficou conhecida apenas pela história dos primeiros animais deixados no local. Reportagens e estudos sobre a área apontam que o abandono de gatos na ilha teria continuado ao longo das décadas.
Ou seja: um episódio que pode ter começado com alguns poucos felinos acabou se transformando em uma população de centenas de animais, agravada pela reprodução sem controle e, segundo relatos sobre o caso, por novos abandonos.
O abandono de animais é crime no Brasil e pode causar consequências graves tanto aos animais quanto ao meio ambiente. Conforme o advogado João Antônio Santos, não há um artigo específico com o nome “abandono de animais”. “O abandono de animais é enquadrado no artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais, de 1998, que que pune atos de abuso e maus-tratos. Neste caso, a pena pode ser de dois até cinco anos de prisão, além de multa”, explica.
Por que é tão difícil resolver o problema?
Os ambientalistas explicam que retirar centenas de gatos de uma ilha não é uma tarefa simples. Muitos animais são arredios e vivem em áreas de mata fechada, dificultando a captura. Além disso, qualquer intervenção precisa considerar simultaneamente o bem-estar dos gatos, o controle populacional, o risco de novos abandonos e a proteção da fauna nativa.
Uma expedição realizada em 2020, por exemplo, mostrou a dificuldade de aproximação dos animais. Alguns gatos capturados foram levados ao continente para receber atendimento e seguir para adoção, mas a dimensão da população torna inviável uma solução simples ou imediata.
Em 2025, o assunto chegou a uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), contou ocm profissionais e representantes de diferentes áreas para discutir alternativas sustentáveis para a superpopulação de gatos. Entre os desafios está justamente encontrar uma solução permanente, capaz de interromper o ciclo de reprodução e abandono sem criar novos problemas ambientais.
O que antes parecia uma curiosidade virou um alerta
Um estudo divulgado em 2026, com participação de pesquisadores de instituições como Fiocruz, UFRRJ, UFSM e UFRJ, identificou a circulação do parasita entre os gatos ferais da ilha. Entre 52 animais avaliados, 40,4% apresentaram anticorpos contra o Toxoplasma gondii, indicando contato com o agente.
A preocupação é que o parasita eliminado nas fezes dos felinos possa alcançar o solo e, posteriormente, o mar com a chuva, contaminando o ambiente.
Segundo o Ministério da Saúde, o Toxoplasma gondii pode infectar animais de sangue quente, incluindo aves e mamíferos aquáticos. Por isso, a situação da Ilha Furtada passou a ser tratada também como uma questão de saúde ambiental.
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