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RECEITA HISTÓRICA

Entenda por que a Linguiça Blumenau está no centro de uma polêmica em SC

Mudanças nas regras de fabricação geraram reação de produtores e até de Luciano Hang

• Atualizado

Olga Helena de Paula

Por Olga Helena de Paula

Entenda por que a Linguiça Blumenau está no centro de uma polêmica em SC | Foto: Agência Sebrae
Entenda por que a Linguiça Blumenau está no centro de uma polêmica em SC | Foto: Agência Sebrae

A tradicional Linguiça Blumenau, um dos símbolos da gastronomia catarinense, virou alvo de debate nas últimas semanas após mudanças nas regras que regulamentam a fabricação em Santa Catarina.

A discussão mobilizou produtores, empresários e até o empresário Luciano Hang, que saiu em defesa da manutenção da receita original do produto.

Na quarta-feira (3), Hang visitou a fábrica da Olho Embutidos, em Pomerode, uma das mais tradicionais fabricantes da Linguiça Blumenau no estado. Segundo ele, as alterações previstas na regulamentação podem impactar um produto que faz parte da história e da cultura catarinense há mais de um século.

“Estamos falando de um produto que gera empregos, movimenta a economia e representa a herança deixada pelos imigrantes que ajudaram a construir Santa Catarina”, afirmou o empresário durante a visita.

Mas afinal, o que mudou? E por que a nova regra está gerando tanta repercussão?

O que está acontecendo?

A polêmica surgiu após a publicação da Portaria SAR nº 14, de 6 de maio de 2026, da Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária.

A norma alterou pontos da Portaria SAR nº 23/2020, que estabelece os requisitos mínimos de qualidade e identidade da Linguiça Blumenau produzida em Santa Catarina.

As mudanças foram publicadas no Diário Oficial do Estado em 8 de maio e já estão em vigor.

O que mudou na regra da Linguiça Blumenau?

Foto: SCC SBT

A redução do limite de gordura de 42% para 30% é a mudança que mais repercutiu entre produtores e consumidores. No entanto, a nova Portaria SAR nº 14/2026 trouxe outras alterações que também podem impactar a fabricação da tradicional Linguiça Blumenau.

Menos gordura na receita

A principal mudança estabelece que o produto poderá ter, no máximo, 30% de gordura, ante os 42% permitidos anteriormente.

Segundo os fabricantes, a alteração pode modificar características tradicionais da linguiça, como:

  • Sabor;
  • Textura;
  • Suculência;
  • Processo de produção.

Produto precisará ser mais seco

Outra alteração está relacionada à umidade do produto.

  • Antes: umidade máxima de 60%.
  • Agora: umidade máxima de 55%.

Na prática, a Linguiça Blumenau precisará passar por um processo maior de secagem e maturação. Para os produtores, isso pode influenciar:

  • O rendimento da fabricação;
  • O peso final do produto;
  • A textura característica da linguiça;
  • O tempo necessário para chegar ao ponto ideal de comercialização.

Limite de cálcio foi reduzido

A nova norma também diminuiu o limite permitido de cálcio em base seca.

  • Antes: máximo de 0,3%.
  • Agora: máximo de 0,1%.

Embora seja um parâmetro menos conhecido pelo consumidor, ele faz parte dos critérios de controle de qualidade utilizados na produção e fiscalização do produto.

Ingrediente deixa de ser permitido

A portaria também retirou da regulamentação a possibilidade de uso do cloreto de cálcio, que era considerado um ingrediente opcional desde a norma publicada em 2020.

Com a mudança, a substância não poderá mais ser utilizada na fabricação da Linguiça Blumenau, o que pode exigir adequações por parte de algumas empresas.

O que continua igual?

Apesar das alterações, diversos elementos considerados tradicionais da Linguiça Blumenau permanecem preservados na regulamentação.

Continuam obrigatórios:

  • Carne suína dos cortes definidos pela norma;
  • Toucinho suíno;
  • Alho;
  • Pimenta-do-reino;
  • Defumação exclusivamente natural;
  • Formato tradicional em ferradura.

Também seguem proibidos:

  • Carne mecanicamente separada (CMS);
  • Proteínas não cárneas na formulação.

Por que os produtores estão preocupados?

Embora a discussão tenha se concentrado na redução da gordura, os fabricantes afirmam que o impacto das mudanças vai além desse ponto.

Na avaliação do setor, a combinação de menor teor de gordura, redução da umidade, novo limite de cálcio e retirada do cloreto de cálcio pode alterar características históricas da Linguiça Blumenau, um produto cuja receita é mantida há mais de um século e que se tornou um dos principais símbolos da gastronomia catarinense.

Linguiça Blumenau é patrimônio cultural e tem selo de origem

Foto: Ascom/Cidasc

A preocupação dos fabricantes também está ligada à importância histórica e cultural da Linguiça Blumenau para Santa Catarina.

Em fevereiro de 2024, o produto recebeu o selo de Indicação Geográfica (IG) concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

O reconhecimento garante que apenas empresas localizadas em uma área específica do Vale do Itajaí possam produzir a iguaria seguindo os critérios estabelecidos para o produto tradicional.

A região reconhecida inclui os municípios de Blumenau, Gaspar, Pomerode, Timbó, Indaial, Presidente Getúlio, Lontras, Presidente Nereu, Rio do Sul, Aurora, Ituporanga e Imbuia.

Receita centenária

A história da Linguiça Blumenau começou no final do século XIX, quando imigrantes alemães adaptaram receitas trazidas da Europa e passaram a produzir o embutido na região onde hoje está localizada Pomerode, que na época fazia parte do distrito de Blumenau.

Com o passar das décadas, a receita atravessou gerações e se transformou em um dos produtos mais tradicionais da gastronomia catarinense.

A fabricação utiliza exclusivamente carne suína e toucinho, além de um processo de defumação natural que ajuda a garantir o sabor e as características marcantes do produto.

Além do reconhecimento nacional por meio da Indicação Geográfica, a Linguiça Blumenau também foi declarada patrimônio cultural e imaterial de Santa Catarina pelo Governo do Estado em junho de 2024.

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