Nenhuma mulher é feliz atrás das grades
Narcisismo e o ciclo da violência que aprisiona mulheres
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Não sou psicóloga. Portanto, não domino tecnicamente, em profundidade, o transtorno de personalidade narcisista. Mas, por razões pessoais, tenho grande interesse em compreender esse tema. Leio, pesquiso, escuto especialistas e tento entender por que tantas histórias de violência contra mulheres seguem um padrão tão parecido.
Para começar, é importante explicar o que é o narcisismo. Segundo especialistas, como a psicóloga Ana Beatriz Barbosa, o narcisismo é um traço de personalidade marcado pela autoimportância excessiva, arrogância, necessidade constante de admiração e profunda dificuldade de empatia. Em alguns casos, manifesta-se como o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), uma condição de saúde mental.
A violência doméstica praticada por homens narcisistas decorre, principalmente, da necessidade de manter controle e poder sobre a parceira, da ausência de empatia e da incapacidade de lidar com emoções como frustração, raiva e vergonha.
Nem todo homem violento é narcisista. Mas uma parcela expressiva dos homens que cometem violência contra mulheres compartilha traços fortemente alinhados ao narcisismo, sobretudo aquele legitimado por uma cultura que exalta o “eu”, a superioridade masculina, o controle e a dominação.
Vivemos na chamada sociedade do eu: competitiva, autocentrada, orientada para performance, conquista, imagem e poder. Nesse terreno fértil, o narcisismo deixa de ser apenas um traço individual e passa a operar como uma estrutura social. E é exatamente nesse ponto que ele se encontra com a violência de gênero.
O homem narcisista não se vê em relação. Ele se vê em espelho. A parceira não é um sujeito, mas uma extensão da sua identidade, uma fonte de validação, admiração e obediência. Quando essa mulher falha em cumprir esse papel, ao discordar, impor limites, brilhar ou simplesmente existir como pessoa autônoma, a reação não é diálogo. É punição. E é aí que a violência entra.
Essa violência raramente começa com um tapa. Ela começa com a desqualificação, o isolamento, a inversão de culpa, o controle emocional e o gaslighting. Ele trai, ela é culpada. Ele explode, ela “provocou”. Ele humilha, ela é “sensível demais”. Trata-se de uma engenharia psicológica sofisticada que, aos poucos, mina a percepção da realidade da vítima.
Estudos mostram que a violência psicológica antecede praticamente todos os casos de violência física, funcionando como um terreno preparatório para agressões mais graves, inclusive o feminicídio. Ainda assim, por ser sutil, ela segue invisibilizada, socialmente, juridicamente e até emocionalmente.
Nesse cenário, o homem narcisista nada de braçada. Esse é o jogo que ele aprendeu a jogar com o mundo desde criança. Dentro de casa, com a parceira emocionalmente envolvida ele abusa e pratica a violência, e assim fica ainda mais fácil manter a imagem de “bom moço” para a sociedade enquanto exerce o papel de abusador no ambiente doméstico.
A própria mulher, muitas vezes, não consegue enxergar o que está acontecendo. O narcisista é hábil, inteligente e manipulador. Ele frequentemente inverte os papéis, faz com que ela se sinta culpada por tudo e, assim, a mantém presa ao ciclo da violência.
Mas por que tantas mulheres permanecem?
Porque o ciclo da violência não é linear, ele é circular, previsível e perverso. Após a fase da explosão, vem a chamada lua de mel: pedidos de desculpa, promessas de mudança, gestos de afeto, presentes, planos. O mesmo homem que destrói é o que acolhe. Essa alternância gera dependência emocional, confusão cognitiva e esperança. Afinal, “ele é maravilhoso quando não é mau”.
Some-se a isso uma socialização feminina que ensina, desde cedo, que amor exige sacrifício, tolerância e silêncio; que o valor da mulher está em ser escolhida; que a solidão é fracasso; e que a violência pode ser confundida com cuidado ou paixão. Quando o abuso se instala, a mulher já está fragilizada, isolada, culpada e, muitas vezes, financeiramente dependente. É aprisionamento emocional e financeiro.
Mais de 60% das mulheres já passaram por algum tipo de relacionamento abusivo, muitas sem sequer reconhecer que viviam violência. Ainda assim, a sociedade insiste em perguntar “por que ela não saiu?”, em vez de questionar por que ele violenta, manipula e controla.
Há também um elemento coletivo perturbador: a defesa social do agressor. Não é raro ver homens e mulheres relativizando crimes (“ela deve ter provocado”), romantizando agressores (“ele fez isso porque amava demais”) e culpabilizando vítimas (“também, ela enfrentava ele quando ele se enfurecia”). Essa conivência sustenta o ciclo, legitima a violência e empurra mulheres ainda mais para o silêncio.
Homens violentos podem mudar? Em alguns casos, sim.
Homens violentos com traços narcisistas mudam? Não. O narcisista não muda. A única mudança possível, nesses casos, é a da mulher, ao se afastar.
A transformação de um homem violento não acontece por promessas emocionadas após a agressão. Mudança real exigiria reconhecimento, responsabilização, psicoterapia profunda e disposição contínua para enfrentar padrões narcísicos e machistas, algo raro enquanto o poder ainda compensa.
Por isso, a prioridade não pode ser salvar e curar o homem agressor, em que pese
ser importante, é uma transformação de longo prazo.
As mulheres estão morrendo hoje, nesse exato momento, então precisamos urgentemente romper o ciclo da violência e salvar a mulher.
Romper o ciclo exige informação, políticas públicas eficazes, redes de apoio, escuta qualificada e, sobretudo, uma mudança cultural: amor não machuca, não controla, não humilha, não ameaça.
Enquanto confundirmos ego com amor, controle com cuidado e violência com paixão, seguiremos chamando de “relacionamento” o que, na verdade, é prisão.
E nenhuma mulher é feliz atrás das grades.
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