Melissa Amaral

Professora, Doutora e Pós-doutoranda. Pesquisadora no grupo de pesquisa CoMovI, atua nas áreas de Sustentabilidade Organizacional, ESG, Empreendedorismo e Empoderamento da Mulher.


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8 de março

Dia Internacional da Mulher — E eu não quero ganhar flores

Mais do que flores e homenagens, o 8 de março é um chamado à reflexão sobre violência, desigualdade e a urgência de uma sociedade mais justa para todas as pessoas

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Dia Internacional da Mulher — E eu não quero ganhar flores | Imagem criada por IA
Dia Internacional da Mulher — E eu não quero ganhar flores | Imagem criada por IA

Estamos na semana do Dia Internacional da Mulher. E deixa eu te dizer uma coisa: eu não quero ganhar flores, nem chocolate.

  • Quero ganhar respeito.
  • Quero viver em uma sociedade em que mulheres possam existir com liberdade, segurança e igualdade.

Por isso, você acha que faz sentido desejar feliz Dia das Mulheres e mulheres serem mortas e discriminadas todos os dias? Vocês realmente acham que pode ser um dia feliz?

Enquanto mulheres seguirem sendo estupradas, assediadas, discriminadas, violentadas e tratadas como se fossem menos capazes, não há muito o que comemorar. Há, sim, o que lembrar e o que transformar.

O 8 de março não nasceu como uma data de celebração, e sim como a lembrança de um dia de luta. Um dia que remete às diversas mobilizações de mulheres trabalhadoras no início do século XX que aconteceram no mundo todo, reivindicando condições dignas de vida, de trabalho, salários justos e direitos básicos, entre eles, o direito ao voto. Décadas depois, em 1975, a data foi reconhecida oficialmente pela ONU como um dia para lembrar que direitos foram conquistados porque mulheres lutaram, e ainda lutam, por eles.

Atualmente, mesmo com todos os avanços, o Brasil registra um feminicídio a cada cerca de 6 horas, mais de 70 mil casos de estupro, o que significa um estupro a cada 8 minutos, e no último ano mais de 20 milhões de mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência. No mercado de trabalho, a desigualdade também persiste, as mulheres brasileiras recebem, em média, cerca de 20% a menos que homens, mesmo exercendo funções semelhantes e são a minoria em espaços de liderança.

E há ainda um dado que deveria preocupar qualquer sociedade: MULHERES SÃO MAIORIA ENTRE AS CHEFES DE FAMÍLIA NO BRASIL, RESPONSÁVEIS PELO SUSTENTO DE MILHÕES DE LARES. Quando elas são vítimas de violência ou desigualdade, o impacto atinge diretamente seus filhos e toda a estrutura familiar.

E isso não acontece porque as mulheres exageram, são menos competentes ou têm um comportamento inadequado. E sim porque ainda vivemos em uma sociedade que, muitas vezes, naturaliza a discriminação e a violência contra a mulher.

Hoje em dia vemos muita gente (graças a Deus, muitos homens) se posicionar e repetir frases essenciais: não é não, estupro é crime, não se bate em mulher.

E ter homens engajados, lutando ao nosso lado, é algo extremamente importante e positivo. Mas isso precisa ir além das frases. Precisa ser realmente compreendido e respeitado no público e no privado, para que os números mudem. Precisamos que os homens se posicionem nos grupos de whatsapp, na reunião da empresa, no núcleo familiar etc.

Existe uma cultura silenciosa que alimenta esse problema. Ela aparece quando alguém pergunta o que a mulher estava vestindo. Quando culpam a vítima. Quando relativizam a agressão. Quando dizem que foi só uma brincadeira. 

E há outro ponto que merece reflexão e é muito grave: quando mulheres reproduzem esse mesmo discurso.

Quando vemos mulheres minimizar ou se posicionar contra o feminismo.

Quando dizem que não precisam dele, que basta serem competentes.

Quando criticam outras mulheres por reivindicarem direitos.

Mas como essas mesmas mulheres conquistaram o direito de votar e de serem votadas? Como puderam trabalhar e receber salário sem a autorização de um homem?

Isso é um paradoxo não é mesmo?

Muitas das liberdades que hoje parecem naturais para as mulheres, como estudar, trabalhar, votar, ocupar cargos de liderança, existem justamente porque mulheres feministas antes de nós lutaram por igualdade.

O feminismo, na sua essência, não é uma guerra contra os homens. É um movimento que busca igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. Nada mais. Nada menos. 

E o que ainda precisamos fazer para que essa data deixe de ser necessária, ou vire de verdade uma comemoração?

  • Precisamos que parem de nos matar.
  • Precisamos que as leis que sejam aplicadas com rigor e as penas endurecidas.
  • Precisamos que meninos sejam educados desde cedo a respeitar meninas e mulheres.
  • Precisamos de empresas que levem a igualdade a sério, não apenas em discursos, mas em oportunidades no dia a dia.
  • E precisamos de algo que talvez seja o mais difícil: mudança cultural.

Isso envolve os homens, que precisam reconhecer o problema e agir ainda mais como nossos aliados. E envolve nós, mulheres, que precisamos apoiar umas às outras, em vez de reforçar, por ideologia, ignorância, ou qualquer outro motivo, estruturas misóginas e patriarcais que nos prejudicam há séculos.

Porque não estamos falando de um problema abstrato. Estamos falando de vidas, de famílias. São mulheres que estão morrendo. São filhas, irmãs e mães que estão sendo violentadas. E nenhuma sociedade pode se considerar justa enquanto metade dela ainda precisa lutar simplesmente para existir com dignidade.

Então, meus queridos leitores, o Dia Internacional das Mulheres não é um dia para ganhar flores (é claro que gostamos de flores e bombons, podem nos dar todos os dias). É um dia para lembrar o quanto já avançamos e o quanto ainda precisamos avançar.

LEMBREM-SE: igualdade não é um favor. É um direito já conquistado que tem que ser cumprido. 

E enquanto mulheres ainda precisarem lutar para viver com segurança, dignidade, liberdade e respeito, o 8 de março continuará sendo um marco para nos lembrar de que ainda temos muito trabalho pela frente.

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