Melissa Amaral

Professora, Doutora e Pós-doutoranda. Pesquisadora no grupo de pesquisa CoMovI, atua nas áreas de Sustentabilidade Organizacional, ESG, Empreendedorismo e Empoderamento da Mulher.


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CONSCIENTIZAÇÃO

Autismo e normalidade: afinal, o que é ser normal?

Sabemos que o autismo é uma condição do neurodesenvolvimento

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Autismo e normalidade: afinal, o que é ser normal? | Foto: divulgação.
Autismo e normalidade: afinal, o que é ser normal? | Foto: divulgação.

Hoje, no Dia Mundial de Conscientização do Autismo, me peguei pensando em uma palavra que usamos com muita facilidade, e, que talvez reflitamos pouco a respeito: normalidade. O que é, afinal, uma vida normal, ou ser normal?

Sabemos que o autismo é uma condição do neurodesenvolvimento. Não é doença, não é para ser curado, mas uma forma diferente de perceber, processar e interagir com o mundo. E quando falamos em autismo, falamos de um espectro. Isso significa que existem diferentes níveis de suporte, diferentes formas de comunicação e diferentes necessidades.

Algumas pessoas autistas precisam de mais apoio no dia a dia. Outras têm maior autonomia. E aqui é importante ter um cuidado extra: expressões como grau leve, autismo mais forte, ainda são usadas no senso comum, mas o mais adequado é falar em níveis de suporte. Pois não se trata de mais ou menos autista, mas das necessidades distintas de cada pessoa.

Mas, para além dos conceitos, existe a vida real. E a vida real, principalmente para as famílias, está longe de ser simples.

Tive uma conversa com um amigo, pai de um menino autista, e ouvi algo que ficou na minha cabeça. Ele me disse que o grande desafio não é somente garantir tratamentos, terapias e acompanhamentos, o que, por si só, já exige tempo, recursos e energia. E não são todas as famílias que conseguem proporcionar a pessoa todo o necessário para seu amplo desenvolvimento. O maior desafio, segundo ele, é encontrar equilíbrio.

Dar todas as oportunidades possíveis, sim. Oferecer suporte, sim. Mas também tratar o filho dentro de uma perspectiva de ‘vida normal”: com estímulos, limites, desafios e expectativas.

E foi aí que a pergunta apareceu: o que é normal? Existe, de fato, uma régua única que define como alguém deve viver, aprender ou se desenvolver? Ou será que aquilo que chamamos de normalidade é apenas um padrão construído socialmente, e que exclui tudo o que não segue o que foi definido por essa sociedade?

Talvez a questão não esteja nas pessoas autistas, mas na forma como organizamos o mundo. Na prática, o que mais pesa não é a condição em si, mas as barreiras que a cercam. Barreiras de acesso ao diagnóstico precoce, barreiras financeiras para manter terapias contínuas, barreiras educacionais, com escolas que ainda não estão preparadas.

Também existem as barreiras sociais, marcadas por desinformação, preconceito e julgamentos. E, muitas vezes, uma pressão silenciosa para que essas pessoas se encaixem em um modelo que nunca foi pensado para elas.

Ao mesmo tempo, é preciso cuidado para não cair no outro extremo: o da superproteção, especialmente da criança autista, que limita o desenvolvimento., Porque incluir não é poupar a pessoa dos desafios da vida. Incluir é garantir que ela tenha condições de enfrentá-los.

E isso exige algo que nem sempre estamos dispostos a fazer: adaptar o ambiente, rever expectativas e questionar nossos próprios conceitos e preconceitos. No fundo, todos nós operamos dentro de padrões que aprendemos ao longo da vida. Mas esses padrões não são neutros, eles definem quem é visto como adequado, capaz, normal. E talvez esteja na hora de fazermos um movimento diferente, que seja menos sobre tentar encaixar pessoas autistas em uma ideia rígida de normalidade e mais sobre ampliar o que entendemos por viver bem.

Uma pessoa autista pode estudar, trabalhar, se relacionar, construir autonomia e ter qualidade de vida. Mas isso não significa que precise seguir exatamente os mesmos caminhos, ritmos ou formas que a maioria. E está tudo bem.

Porque, no fim, talvez o maior desafio não seja explicar o autismo, ou qualquer outra condição neurodivergente, alguma deficiência, ou até mesmo escolhas de vida, mas compreender que todos somos diferentes e que, justamente por isso, não exista um padrão único de normalidade. 

Somos iguais nas nossas igualdades e diferentes nas nossas diferenças. E é isso que nos torna tão plurais, tão humanos e faz do mundo um espaço possível de aprendizado, evolução e inovação.

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