Jogo do tigrinho liga dono de carteira falsa a venda ao BRB
André Seixas Maia, sócio das empresas Cartos e Tirreno, é alvo de inquérito em São Paulo
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Suspeito de ter encabeçado a fabricação de uma carteira de crédito falsa de R$ 6,7 bilhões no esquema do Banco Master, o empresário André Felipe de Oliveira Seixas Maia é investigado pela Polícia Civil de São Paulo por supostamente ter integrado um esquema em torno de plataforma ilegal de apostas como “jogo do tigrinho”, cassino online e apostas esportivas.
A carteira de créditos podres, que o Master vendeu para o BRB por R$ 12,2 bilhões, está no centro do escândalo que levou à liquidação do banco de Daniel Vorcaro em novembro.
Seixas Maia ficou preso por três dias em novembro, alvo da Operação Compliance. Ele é sócio das empresas Cartos e Tirreno, que, apontam a Polícia Federal e o Banco Central, teriam fabricado as carteiras de crédito falsas para o Banco Master.
Segundo a PF, o Master não pagou nada pela aquisição da carteira de R$ 6,7 bilhões e a vendeu para o BRB, cujo rombo com as fraudes pode ultrapassar R$ 5 bilhões.
Seixas Maia, que também é ex-funcionário do Master, pediu a suspensão de seu depoimento à PF, que estava marcado originalmente para 26 de janeiro, sob o argumento de que seus advogados não haviam tido acesso integral às provas reunidas.
Segundo apurou o SBT News, no caso do inquérito da Polícia de São Paulo (número 1546183-28.2025.8.26.0050), a empresa que pertenceu a Seixas Maia e sócios, a Silium (posteriormente renomeada Nuoro Pay), é suspeita de administrar as contas bancárias de empresas de fachada que recebiam o dinheiro depositado no site 59bet55.com, que redirecionava para a página 6666tiger.com, que, por sua vez, oferecia jogos de azar como o “jogo do tigrinho” e apostas esportivas, sem autorização para operar em território nacional.

Por isso, segundo o inquérito, a Silium teria sido “peça central na engrenagem financeira da organização”, ocupando posição destacada na teia de empresas do esquema de fraude e de lavagem de dinheiro.
Em nota, a defesa de Seixas Maia afirma que ele jamais se beneficiou de quaisquer recursos ilícitos, não participou de estruturas voltadas à exploração irregular de apostas e nem teve conhecimento prévio de eventual ilicitude de terceiros.
Destaca, também, que o inquérito se encontra em fase investigativa, sem denúncia, sem indiciamento e sem decisão judicial que atribua a Seixas Maia a prática de qualquer conduta irregular (veja mais abaixo).
Em sua investigação, a Polícia Civil de São Paulo encontrou fluxo de dinheiro de apostas da plataforma ilegal para empresas intermediárias, registradas em nome de pessoas que não tinham conhecimento de que tinham companhias constituídas sob sua responsabilidade. Por exemplo, uma vendedora de roupas do Brás e um usuário de drogas dado como desaparecido pela família.
As diversas empresas de fachada, constituídas e abandonadas em sequência, teriam sido criadas pela organização para promover a circulação rápida do dinheiro das apostas, apagar registros e escapar do rastreamento policial. A investigação identificou movimentações financeiras de mais de R$ 36 milhões em somente uma das empresas em um período de quatro meses.
A gestão financeira destas companhias, segundo a investigação, era feita pela Silium.
Tanto as empresas de fachada como a própria Silium são alvos de centenas de queixas em sites como o Reclame Aqui devido a retenção de valores depositados ou não pagamento de apostas. Pessoas que foram registradas como proprietárias das empresas de fachada disseram à Polícia Civil que têm recebido ameaças de apostadores.
A investigação da polícia encontrou também outras estratégias dos envolvidos no esquema para fugir do rastreamento, como ferramentas tecnológicas para inviabilizar a identificação do servidor de origem e do provedor final de hospedagem da plataforma de apostas e a utilização das chamadas contas-bolsão. Esse instrumento, típico de fintechs, reúne recursos de vários usuários em uma única conta, sem identificação individualizada dos titulares.
Em novembro do ano passado, após operação de PF, Ministério Público de São Paulo e Receita que apontou o uso das contas-bolsão por fintechs que supostamente atuavam para movimentar recursos para a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), o Banco Central determinou o encerramento dessa modalidade de conta.
Em março do ano passado, Seixas Maia e outros três sócios retiraram-se da Silium, que passou a se chamar Nuoro Pay e a ter um novo representante. Além de Seixas Maia, dois sócios da Silium também faziam parte do quadro societário da Cartos.
A Polícia de SP aponta apenas Seixas Maia, no entanto, como sócio principal da Silium e possível articulador do esquema ilegal de apostas.

O inquérito diz que as alterações na Silium sugerem “tentativa de reorganização societária ou ocultação da verdadeira estrutura de controle da empresa, possivelmente em resposta às medidas de persecução adotadas”.
Um mês antes das mudanças, policiais da delegacia de estelionato do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) estiveram na sede da empresa para intimar os representantes. Na sequência, segundo o zelador do prédio, o local em que funcionava a empresa foi esvaziado e o contrato de locação foi rescindido.
Segundo os investigadores, o inquérito mostra “indícios robustos quanto à materialidade das práticas criminosas de exploração de jogos de azar e lavagem de capitais”, articulado por um sistema de empresas e beneficiários no qual, segundo a polícia, a Silium/Nuoro Pay tinha posição central.
Em relação à participação de Seixas Maia no caso Master, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, disse à Polícia Federal durante depoimento em dezembro que foi a partir de uma reunião em junho com o sócio da Cartos e da Tirreno que a autoridade monetária teve certeza de que havia fraude.
Segundo Aquino, Seixas Maia teria dito no encontro que mais de R$ 6 bilhões haviam sido gerados em créditos pelas empresas, o que seria “impossível do ponto de vista técnico”, segundo o diretor do BC, dado que a Cartos é uma “empresa pequena” e a Tirreno é uma empresa “desconhecida”.
Os advogados que cuidam das acusações contra Seixas Maia ligadas ao caso Master não enviaram resposta ao SBT News.
A Cartos nega ter participado da fabricação ou comercialização da carteira de créditos falsos, e Vorcaro disse, também em depoimento à PF, em dezembro, não concordar com a definição das carteiras como podres e que não se aprofundou na análise das operações na ponta.
A defesa de Seixas Maia no caso da investigação em São Paulo afirma que “a empresa operava com natureza estritamente técnica, como provedora de tecnologia voltada ao processamento e gerenciamento de transações eletrônicas de pagamento”, sem qualquer ingerência sobre origem, destino ou finalidade das transações realizadas por seus clientes.
Assim, a empresa não atuava como instituição financeira ou operadora de plataformas de apostas, mas sim como intermediadora de pagamentos, “em estrita conformidade com a legislação vigente e com as normas do Banco Central, sem envolvimento com a atividade-fim de terceiros, intermediação de investimentos ou exploração de jogos”.
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