Guerra na Ucrânia completa quatro anos
Guerra na Ucrânia completa quatro anos com impasses sobre territórios, Otan e garantias de segurança nas negociações de paz
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Conflito entre Rússia e Ucrânia enfrenta entraves diplomáticos enquanto EUA pressionam por acordo até junho. Antes ansioso por um desfecho rápido para encerrar a invasão russa na Ucrânia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, agora acompanha um progresso lento nas negociações de paz. O impasse vem “testando a paciência” do republicano, que já ameaçou abandonar a mediação caso não haja consenso até junho. O conflito completa quatro anos nesta terça-feira (24).
O principal obstáculo está nos termos de um possível acordo. A Ucrânia rejeita a concessão das regiões ocupadas pelo Exército russo Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson, além da península da Crimeia, anexada por Moscou em 2014. No caso de Donetsk e Luhansk, o objetivo russo é consolidar o controle da bacia de Donbass, região estratégica pelas reservas de carvão e ferro.
Otan e garantias de segurança ampliam impasse
Outro ponto sensível envolve a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). O governo de Vladimir Putin exige que a Ucrânia abandone a intenção de integrar a aliança militar, alegando que a expansão do bloco no Leste Europeu representa ameaça à segurança russa.
O presidente Volodymyr Zelensky já sinalizou a possibilidade de abrir mão da adesão, desde que haja garantias de segurança capazes de impedir uma nova invasão.
Segundo Augusto Dall’Agnol, doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS, o impasse envolve soberania, custos políticos e cálculo estratégico.
“Para a Ucrânia, aceitar perdas formais significaria legitimar uma agressão e comprometer sua soberania. Para a Rússia, abrir mão dos territórios ocupados seria politicamente custoso e estrategicamente incoerente”, explica.
Ele destaca ainda o chamado “problema de sequenciamento”: cessar-fogo antes de um acordo político ou acordo político antes do cessar-fogo?
“Cada lado teme que o outro use a primeira concessão para consolidar vantagem”, afirma.
Pressão dos Estados Unidos
O impasse ocorre mesmo sob pressão de Donald Trump. No caso da Ucrânia, o presidente americano ameaça reduzir ou interromper ajuda militar. Já em relação à Rússia, as ameaças envolvem sanções adicionais e restrições à chamada “frota fantasma” de petroleiros russos.
Segundo Dall’Agnol, o objetivo dos EUA não é forçar uma capitulação russa, mas reduzir os custos acumulados do conflito para o Ocidente.
“A lógica americana em 2026 parece ser estabilizar o conflito em termos administráveis. Quanto mais longa a guerra, maior o desgaste fiscal e político”, avalia.
Guerra prolongada ou conflito congelado?
Para Vicente Ferraro, cientista político e pesquisador da FGV e da USP, o cenário mais provável, caso não haja acordo, é a consolidação de um conflito prolongado, com intensidade variável. Ele cita como exemplo o conflito entre Índia e Paquistão, marcado por disputas territoriais e ataques esporádicos ao longo de décadas.
“Não seria exatamente paz, mas também não o fim das hostilidades. Seria um equilíbrio instável”, diz Ferraro.
O especialista ressalta que o custo social, humanitário e econômico pode, no futuro, pressionar as partes a buscar um entendimento. Além disso, tanto Rússia quanto Ucrânia enfrentam desafios demográficos agravados pela guerra.
Impactos estruturais na Europa
O prolongamento do conflito já gera mudanças estruturais na Europa. Países europeus ampliaram gastos com defesa e reorganizam cadeias energéticas e industriais.
O setor militar também passa por reconfiguração, com aumento da produção de munições, drones e sistemas eletrônicos.
Há ainda preocupação com possíveis tensões em países bálticos, como Estônia e Letônia, que possuem minorias russas significativas, fator que poderia ser explorado por Moscou.
Outro temor envolve a escalada nuclear. Em 2024, o Kremlin atualizou sua doutrina nuclear, permitindo o uso de ogivas em retaliação a agressões de Estados apoiados por potências nucleares.
*Texto com informações do SBT News
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