Quem é o casal de Blumenau que vendeu casa, carro e escolheu viver em um motorhome?
Psicóloga e engenheiro decidiram não esperar a aposentadoria para viver a vida que sempre imaginaram
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Em uma linda casa, com gramado verde, cercada pela natureza e localizada em uma rua tranquila de Blumenau, um casal organiza os últimos pertences em caixas de papelão. À primeira vista, parece apenas mais uma mudança. Mas não é.
Franciele Schmitz, de 43 anos, e Alexandre Decarli Ronsani, de 45, não estão trocando de endereço. Estão deixando para trás uma vida inteira construída entre paredes fixas para embarcar em uma nova jornada. A partir de agora, a casa deles terá rodas, vista diferente a cada amanhecer e nenhum CEP definido.

Para viver esse sonho, os dois venderam praticamente tudo. Casa, apartamento, carro e diversos bens acumulados ao longo dos anos. Mas a decisão vai muito além de morar em um motorhome. Ela nasceu de uma reflexão que mudou completamente a forma como enxergavam a vida.
“Não existe um momento ideal”, resume Alexandre.
A frase, repetida algumas vezes durante a conversa com a reportagem do SCC10, ajuda a explicar por que o casal decidiu não esperar a aposentadoria para fazer aquilo que sempre sonhou.

Franciele e Alexandre na frente do motorhome que será a nova casa do casal a partir de agora | Foto: Olga Helena de Paula/SCC10 SBT
A decisão de não deixar a vida para depois
Naturais de Francisco Beltrão, no Paraná, Franciele e Alexandre estão juntos desde 2017 e são casados desde 2019. Ela é psicóloga. Ele é engenheiro de telecomunicações. Alexandre também é pai de Felipe, de 19 anos, fruto de outro relacionamento.
Ao longo dos anos, os dois construíram carreiras sólidas, estabilidade financeira e uma rotina semelhante à de milhares de brasileiros. Mas, aos poucos, começaram a questionar se queriam continuar trabalhando apenas para manter tudo aquilo que haviam conquistado.
“Se você tem uma casa, precisa manter a casa. Se tem um carro, precisa manter o carro. Se tem um gramado, precisa manter o gramado”, reflete Alexandre.
A pergunta que passou a incomodar o casal era simples: por que esperar mais dez ou quinze anos para viver algo que já desejavam agora?
A resposta veio em forma de coragem.
Uma vida marcada por decisões ousadas
A mudança para o motorhome não foi a primeira decisão radical da vida de Franciele.
Em 2016, ela foi eleita vereadora em Francisco Beltrão com 1.783 votos, tornando-se a mais votada daquele pleito. Dois anos depois, renunciou ao mandato e decidiu mudar completamente de rumo.
Antes disso, já havia deixado a família para morar em Rondônia aos 23 anos, trabalhado em diferentes regiões do país e recomeçado diversas vezes.
“Tomar decisões difíceis sempre fez parte da nossa história”, resume.
As viagens que mudaram tudo
O desejo por uma vida mais livre começou a ganhar força durante viagens que marcaram profundamente o casal.
Uma delas foi pela Carretera Austral, uma das rotas mais famosas do Chile. Ao lado de amigos, eles percorreram mais de mil quilômetros por estradas cercadas por montanhas, lagos e paisagens remotas.
Pouco tempo depois, viveram outra experiência transformadora.
Durante seis dias e seis noites, navegaram em um veleiro pelo Caribe, nas ilhas de San Blas, no Panamá. Sem celular, dividindo espaço com pessoas de diferentes países e vivendo uma rotina completamente diferente da habitual.
Foi ali que algo mudou.
Enquanto conversavam com viajantes, empresários, aventureiros e pessoas que haviam escolhido estilos de vida menos convencionais, começaram a perceber que existiam outras formas de viver.
“Foi quando a chave virou”, lembram.
Um sonho que seria para a aposentadoria
O plano inicial era esperar.
O casal imaginava comprar um motorhome apenas em 2029 ou 2030, quando a vida estivesse mais organizada e a aposentadoria mais próxima.
Mas os planos mudaram em 2025.
Depois de duas décadas trabalhando na mesma empresa, Alexandre deixou o emprego. Ao invés de buscar uma nova posição no mercado, decidiu acelerar o projeto que antes parecia distante.
Durante um ano inteiro, o casal passou por uma preparação silenciosa.
Franciele migrou os atendimentos para o formato online.
Alexandre passou a prestar serviços remotamente para empresas da área de telecomunicações.
Os dois passaram meses se adaptando à nova realidade.
Ficaram cerca de seis meses sem carro, usando apenas aplicativos de transporte. Pararam de comprar roupas e objetos que não fariam sentido na nova vida. Testaram uma rotina mais simples, com menos gastos e menos compromissos materiais.
“O último ano foi praticamente um ensaio da vida que estamos começando agora”, conta Franciele.
A viagem de teste
Antes da partida definitiva, veio a prova final.
Pouco depois de receber o motorhome, o casal saiu de Blumenau para uma viagem de aproximadamente 40 dias pela Argentina.
A intenção não era apenas passear.
Eles queriam descobrir se realmente conseguiam viver naquele espaço reduzido, trabalhar remotamente e lidar com os desafios da estrada.
A experiência serviu para ajustar detalhes da rotina, entender o funcionamento do veículo e confirmar algo que já desconfiavam.
Quando voltaram para casa, tinham certeza de que aquela era a escolha certa.
O projeto que começou entre amigos
Ao longo da preparação, Franciele teve uma ideia simples.
Criar uma página para mostrar aos amigos e familiares como estava sendo o processo de mudança.
Assim nasceu o projeto “Nosso Mundo Sem CEP”.
Primeiro no Instagram. Depois no YouTube.
O que começou como um diário de viagem acabou atraindo milhares de pessoas.
O primeiro vídeo publicado ultrapassou 50 mil visualizações e o casal passou a viver situações que nunca imaginou.
Durante a viagem pela Argentina e pelo Paraguai, desconhecidos os reconheceram em campings e pararam para conversar.
“Vocês são do Nosso Mundo Sem CEP?”, ouviram mais de uma vez.
Hoje, o projeto já conta com patrocinadores e acompanha o casal nessa nova etapa da vida.
A despedida
Antes de partir, os dois ainda tiveram tempo para um último encontro especial.
Reuniram 24 amigos para uma feijoada de despedida em Blumenau.
Uma celebração simples, mas carregada de significado.
Afinal, naquele momento, eles não estavam apenas deixando uma casa para trás.
Estavam abrindo mão da segurança de uma vida previsível para descobrir o que existe depois dela.
O primeiro destino foi Governador Celso Ramos. Depois vêm Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.
O plano para 2026 é seguir até Ushuaia, no extremo sul do continente, aproveitando o caminho sem pressa e transformando cada parada em uma nova experiência.
Mas a aventura não termina lá.
Em 2027, Franciele e Alexandre pretendem voltar os olhos para o Brasil. O objetivo é percorrer todas as regiões do país e conhecer o máximo possível do território brasileiro. Entre os destinos mais aguardados estão Minas Gerais e Espírito Santo.
Segundo o casal, toda essa jornada deve durar pelo menos quatro anos.
Sem pressa.
Sem data para voltar.
E, principalmente, sem esperar que um dia perfeito apareça para começar a viver.
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